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30 de abril de 2017

Quando eu ainda escrevia,



Quando eu ainda escrevia, eu conhecia uma ilha. Era possível me encontrar em lugar-nenhum, através de algumas passagens pontuadas em um mapa. Para um visitante podia ser meio difícil, mas era possível encontrar a ilha. Ela tinha residentes fixos e algumas âncoras que a mantinham por ali. Todos os dias os moradores checavam as âncoras para terem a certeza de que estavam firmes. No dia que precisei partir, disse até logo e eles me disseram para encontrar o lusco-fusco do dia que decidisse retornar. Enquanto ainda me lembrava de suas palavras, pude ser uma exploradora de todos os lugares-nenhuns que existiam perto de casa. Enquanto estava na ilha, a realidade não podia me engolir.

Quando eu ainda escrevia, não tinha essa hesitação ante uma folha de papel em branco. Ela nunca foi só um pedaço de papel um tanto intimidante, um bocado azedo, um pouquinho alérgico. Era um espaço publicamente aceitável de se vomitar palavras. Não tinha de pensar duas, três, dez vezes no que gostaria de dizer ao mundo, porque eu nunca realmente me direcionei a ele, mas a mim, mas a você e talvez ao estranho do outro lado da rua. Eu ainda vivia naquele espaço-tempo atemporal da infância, cujo futuro é aquele tio desorganizado que mora longe e que não saberia se aproximar de nós nem se tentasse. Ocasionalmente respirava em cenas, lavava calçadas lutando com dragões ou a louça em uma conversa cínica com um personagem que sempre foi muito mais do que mera invenção.

Quando eu ainda escrevia, trocava o coração cheio de realidade por promessas, platônicos e amanhãs. A decisão de matar era minha. Mas eu costumava deixar viver. Ser escritora de finais felizes porque, se eu pudesse escolher, também gostaria que esse fosse o meu final. E quem disse que gente também não é personagem? Acho até que valeria a pena não ter um final tão bom assim se o desenvolvimento fosse memorável. Parece até que foi esses dias aí que tive uma reunião com o elenco de um curto romance que já cheguei a terminar, mas não coloquei um ponto final. No início, todo mundo sabia qual era seu fim e atuava conforme o script, mas foi só eu virar as costas para dar atenção a qualquer outra fase da vida para que todo mundo parasse para pensar e decidisse que, veja bem, não queria terminar bem assim. E eu decidi que não queria terminar assim também, e agora todos estamos em uma fase de nova adaptação uns aos outros. Eles já sabem seu novo término, mas estão usando esse tempo para viver além dele. E eu aqui criando coragem para colocar no papel. Esse papel que se desacostumou de mim e eu a ele. Que me dá ansiedade quando me vejo a sua frente e sei que tudo o que ele quer fazer é correr para longe (como o tio distante). Eles dizem que escrever é talento, mas esquecem de entender que a gente também esquece. A gente desaprende e depois não sabe como voltar atrás. Dá para fazer fisioterapia de escrita? Voltar para a escola e reaprender a juntar as ideias? Não só as ideias, é verdade, mas também nossa própria voz.

Quando eu ainda escrevia, não o fazia todos os dias como hoje. Eu o fazia quando sentia que precisava vomitar realidade. É a minha forma pessoal de desabafar. É a arte que me escolheu também, a seu modo. Agora preciso me adequar a moldes ditos técnicos de um ofício e a uma nova linguagem que não me cai muito bem (onde estão as metáforas?). Tive que apagar até mesmo minha voz ou ao menos essa é uma tentativa diária. É que os moldes já vêm com sua própria narrativa e, a bem verdade, não passamos de uma representação daquilo que já está escrito. Não posso escolher ser uma representação, mas foi escolha minha decidir não pensar muito sobre isso. E não desistir e tentar fazer outra coisa. Guardei com cuidado em um baú a minha natureza. Como ela é distraída e um bocado confusa, volta e meia ainda reflete no espelho e as pessoas acabam reparando. Mas não a escrita, ela me acena pela janela, me diz para tomar bastante banho de chuva, só que ela não volta comigo para casa.  

Quando eu ainda escrevia, mesmo assim, eu sempre estive à margem. Sabe como é, por lá se sai pela surdina. E um secundário sempre teve muito mais liberdade que um principal. A atenção de um público é um fado e um fardo. A diferença é que outrora não narrava apenas o passado, mas revivia o futuro c o n t i n u a m e n t e. Estava à margem e tinha liberdade e um plano e um futuro muito distante para realizá-lo. Então, uma explosão. A transição a outra fase, mais adulta, com todo o desconforto e aquela quantidade desesperada de desilusão. E eu nunca vou saber quando o silêncio passou a ser também apatia e, principalmente, quando a apatia também contaminou as palavras. Hoje, a distância daquela rotina de todo dia me trouxe uma sacola de tempo e o gosto da vontade. Regredindo, percebi mais uma coisa.

Quando eu ainda escrevia, eu era uma ilha.
E eu ainda quero reencontrá-la.


1 comentários:

Herica Black disse...

Apaixonada por esse texto! *-*
Quero encontrar minha ilha também, mas as vezes me pergunto se vou conseguir, ela parece tão distante...

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