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20 de dezembro de 2016

Mrs. Woolf


Virgínia,

Acabo de lê-la mais uma vez. Sua voz narrativa tinha outro tom: era a escritora ensaiando em um mundo de homens e, como necessário, contava sobre mulheres. Não continha todo aquele teor pessoal de Mrs. Dalloway, mas era você por inteira. Amalgamava sua história nas entrelinhas.
O nome do livro era “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” e, como pode entender, consiste numa reunião das suas cartas e críticas e resenhas para alguns eventos que fizeram parte de sua vida. Gostei particularmente do primeiro texto e, embora toda a obra caminhe nessa direção, pareceu um precursor de “um teto todo seu”.
Confesso que em algum momento próximo vou precisar reler todas as 100 páginas que foram tão breves. Tiveram diversas passagens que me fizeram respirar com maior profundidade, perguntar-me se havia entendido o que ali estava contido e, sem separar os lábios, soltar ao vento uma exclamação: ah, virgínia!
Se você não tivesse ido tão jovem, se não tivesse sido tanto, se não fosse toda a força presente em sua escrita, esse livro somente seria mais um ensaio feminista. Talvez hoje fosse, porque o assunto está cada dia mais em pauta, cada vez mais universitário, mais cotidiano, infiltrando-se aos bocados nos recantos mais perdidos de nossa sociedade patriarcal. Ainda temos muito o que fazer, preciso ser franca. Avançamos alguma coisa nesse quase um século que nos separa, mas ainda não o suficiente.
Nós também discutimos as jornadas de trabalho, o aumento salarial, adentramos em mercados majoritariamente masculinos e claramente há muita gente que acredita em nossa inferioridade intelectual; que mesmo uma mulher inteligente nunca será tão notável como o mais notável dos homens. No meu país, ao menos, não estamos mais discutindo a Lei do Divórcio. Em troca, há um evidente regresso no que tange à previdência social. Sim, eu sei que seria uma solidariedade fictícia a que lhe envolveria, já que sua renda era de 500 libras anuais e você, como bem frisou, não precisava trabalhar, não se enquadrava àquela realidade da União das Trabalhadoras de 1930. Mesmo assim, acredito que você gostaria de saber, gostaria de refletir e considerar o assunto da mesma forma que agora faço, após você me fazer sair por algumas horas de minha realidade e adentrar a sua.
Espero que você não se importe se eu lhe escrever às vezes, tenho a impressão que é o que vou desejar quando ler “O quarto de Jacob” e “Rumo ao Farol”. Aliás, é engraçado como você e Plath são tão diferentes, mas me causam essa familiaridade e esse estranhamento. Com ela, meu peito gritava, consciente de si mesmo e de sua autoficção. Com você, eu ouço o silêncio desenfreado de suas batidas.
Com ambas, eu volto a sentir.

A.

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