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11 de setembro de 2016

Ad perpetuam rei memoriam


Vovô era motorista de caminhão.

Trabalhava para médicos, gente letrada. Trabalhou muito. Levava remédios, frascos e o que precisasse para todos os cantos do Brasil. Não sei se sempre foi calvo, mas eu poderia apostar que a magreza o acompanhou durante toda a sua vida.
Ele casou com vovó quando ela tinha vinte e cinco anos e trabalhava em um posto de saúde de Londrina. Era vida dura, ele disse, daquele jeito dele que só quem conhece os dois poderia compreender de verdade. Um mal terminava de falar, o outro já iniciava a próxima oração.
- Eu podia ter pego o diploma de digitador se eu quisesse, meu amigo falou que ‘tava prontinho pra mim – disse vovô.
- E do que adiantaria procê que é praticamente analfabeto? – retrucou vovó.
Com eles sempre era assim. Um sempre brigando com o outro. Só resmungos e olhares duros quando se tinha uma versão diferente da história que o outro contava, ainda que eu tenha sentido o calor da lembrança, o brilho da saudade de quem não se arrepende uma gota de tudo o que viveu.
Eles trabalharam muito. Construíram casa em Curitiba. Construíram casa na Praia. Assim mesmo; os dois. Compraram os terreninhos que podiam comprar e construíram uma chácara, onde eles tinham tanque de pesca, galinhas e milho. Economizaram sempre, disse papai, fazendo sinal de mão fechada enquanto eles me contavam tudo.
Pobre de mim, que sempre achei que vovô tinha sido um pedreiro-talvez-carpinteiro e vovó, uma enfermeira. Mas ele também foi mecânico. Ela, se eu for pensar bem, fez muita coisa na vida.
Era uma vida dura, mas, ah, como era divertido – disse vovô, risonho, naquele sotaque envelhecido de sítio.
Vovô e vovó já foram de caminhão até Porto Velho, me contaram. Precisavam levar carga até Manaus. Dormiam no caminhão para economizar a diária (tudo ia para a construção da casinha de Curitiba, a primeira), cozinhavam no caminhão porque não tinha outro lugar para cozinhar. Era um calor dos infernos por lá.
Já com dois de seus três filhos, papai e tia Néia, saíam de manhãzinha para a Praia de Leste para passar o dia. As crianças, me disseram, ficavam a tarde inteira no mar e, na volta, passavam mal o caminho todo. Chegamos à conclusão que por insolação e a mistura de um bocado de água do mar com comida, mas não seria isso que os impediria de fazer a mesma coisa no próximo fim de semana. Talvez ir para Arapongas. Talvez para Londrina.
- Não é de não se entender porque a gente tá do jeito que tá – disse vovô, lembrando disso tudo e das bebidas e dos cigarros que ambos compartilharam em toda essa jornada.
- E só com quase oitenta anos – disse papai, porque a idade justificava mais a saúde do que tudo aquilo e mais o mundo que levaram nas costas. Eu só pude concordar. Quando vejo vovô e vovó não me lembro que nenhum dos dois terminou o ginásio. Não me lembro que ambos sabem bulhufas de política ou nunca saberão mais do que meia dúzia de palavras em inglês.
Quando eu olho para vovó e vovô, na verdade, eu sinto que tudo isso não vale de nada para o tamanho de força que cada um tem. Isso importa um cominho quando eles têm toda essa carga de vida dentro deles. Eu sei que muita gente, embora muito mais letrada, embora muito mais rica financeiramente, nunca vai ser metade da gente que eles são. Nunca vai viver metade do que eles viveram em uma só viagem de caminhão, em única viagem à praia no dia de domingo.
Quando eu olho para vovó e vovô, vejo duas narrativas que se uniram para formar uma que nunca poderá ser esquecida por aquele que a leu.
E eu agradeço por ter ouvido, por ter sido preenchida por um amor que transbordou. 

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