Pages

23 de maio de 2016

Relato de uma borboleta


Foi com uma das autoras da minha adolescência que aprendi a arte de fazer o que podia com aquilo que eu que tinha. Parecia tão óbvio que é de se espantar que a gente não pense a respeito nem quando sentado em um ônibus encarando a paisagem lá fora. Eu sempre vivi em meu próprio mundo, aquele que criei sem querer e abracei com todo o amor que eu poderia fabricar. Ele tinha um cenário multicolor e seus habitantes me ensinaram a rascunhar suas histórias. Ele tinha personagens de naturezas distintas e suas vontades me ensinaram a empatia (hoje, ainda em construção). Nele, eu aprendi o valor da utopia. Na realidade, me contaram como é ela quem faz a gente caminhar (ainda penso sobre isso, galeano, mas você se foi muito cedo).
Ele não foi somente um refúgio, mas uma lembrança do que eu gostaria de fazer com a minha vida. Não adiantaria de nada a tentativa de desenhar um chapéu se no esboço eu só visse uma cobra que comeu um elefante. Não adiantaria de nada aprender a integrar quando minha habilidade era a de construir um castelo de cartas (ou uma sequência de fibonacci de dominós ou uma torre de agravos de instrumento). Eu tinha um mundo. Ele não era tangível para mais ninguém, mas me servia de escudo para todo o impacto da realidade. Foi dentro dele, de portas trancadas a sete-chaves, que aprendi a fazer o que podia com aquilo que tinha.
Em outras palavras, passei a buscar onde melhor me adequava em vez de correr atrás de coisas que, para alcançar, eu teria que trocar todas as minhas peças. O tempo, que constantemente briga comigo porque exijo mais dele do que ele pode me dar (eu só tenho algumas horas!, ele me diz, da próxima vez, vê se dorme menos...), deixou de me olhar tão enviesado e passou a me ajudar a filtrar a rotina, ainda que eu viva sempre atrasada (é tarde é tarde é tarde!).
Trabalhar se tornou um verbo como outro qualquer, porque entendi que sempre estaria só de passagem e, enquanto estivesse ali, eu só precisaria fazer o que podia com aquilo que eu tinha. O mesmo com as provas da faculdade que só deixam um rastro meio amargo, mas não provam nada. Quase aprendi a lidar com o direito, essa ciência de realidade que quase me afogou, mas toda essa competitividade em tudo o que fazemos só pode causar danos se nos importarmos em demasia. Dei um passo para trás para só acertarem os respingos. Com eles, rego as sementinhas de amor-perfeito que plantei aqui em casa. Ninguém sabe, mas elas fazem parte do meu cenário também.
Por agora, tento apreender a arte de pedir. Já não é tão fácil porque não depende só de eu me libertar de mim, mas de colocar pedacinhos de confiança no próximo. É trocar orgulho por algo que a gente não sabe o que é, mas tem esperança de que seja algo bom. É fazer o que pode com o que se tem e esperar que o outro faça o mesmo.
               
Se um dia você quiser trocar, espero que compreenda: eu só posso um mundo.

1 comentários:

Mr. Nobody disse...

:)

Postar um comentário