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5 de fevereiro de 2016

Ensaio sobre o nada




Não quero escrever. Não quero medir meu humor ou pensar em quantos minutos já se passaram desde que decidi que não conseguiria dormir se não me pusesse, a contragosto, em frente a uma tela, a uma partitura, a uma folha vazia. Na verdade, não quero sair da cama. Você até pode dizer que é por ocasião das férias letivas, que o tédio é bom e suave, mas não é bem assim. Eu sei a diferença.
Sempre gostei de manhãs, mas agora somente acordo para o almoço. Infeliz por ter que me mover para um lugar tão distante como outro cômodo. Com frequência, estou com dor de cabeça. Talvez pelas horas que passei em frente ao computador, talvez pelo esforço contínuo de fazer qualquer coisa que não seja o nada que vem se tornando habitual com o passar dos dias.
Preciso de um emprego, mas, ora, é período ruim da economia, não é? É completamente desculpável adiar para mais tarde. Hoje eu li três livros, ainda que não tenha terminado nenhum, mas não liguei o celular porque não queria receber as mensagens e me obrigar a interagir com as pessoas por ali. Eu as adoro, mas está cada vez mais difícil manter uma conversação. Isso significaria sair do meu silêncio egocêntrico e, por certo, marcar de ir na sorveteria durante uma tarde que, a depender da vontade da cidade, seria ensolarada ou um tanto chuvosa.
Já escrevi poemas românticos e histórias que eram sobre romances. Já me aventurei em canções de uma estrofe e narrativas mais longas que, durante anos, somente alguns dias, me animo a reescrever. Em intermédios dos meus dezoitos anos, meu eu passou a gritar, mostrar os dentes e a me arranhar com suas garras. Com sua expressão de esfinge, disse-me entredentes: decifra-me ou devoro-te, e a muito custo passei a compreender-me. Aprendi-me cíclica e, agora, escrevo sobre nada, porque é isso que me interessa. Leio como se estivesse no fim da vida, como mera espectadora que já não tem presença de espírito de viver as histórias em vez absorvê-las. Não tenho dezenove anos e estou no segundo ano da faculdade. Não quero voltar para aquela arquitetura tão admirada por muitos que resplandece o branco, que me lembra do vazio de um hospital, que engrandece seu espaço até o teto, que me tira de órbita.
Minha horta de um vaso só poderia estar morrendo afogada por tanta chuva, mas ela cresce um pouquinho por vez, cada raio de sol mais verde, cada céu azul mais alta. Não gosto de cozinhar e nunca fui boa. Também não quero mais tanto chocolate. A dança e a luta, vou confessar-lhe, tornaram-se minhas maiores ligações com o mundo real. É quando sou parte de algo, quando tenho que abrir os olhos ou vou cair. Se não me prendo à barra de metal junto ao meu corpo, a esfinge me devora. Eu sei, mas nunca poderia abandoná-la. Até uma quimera precisa de companhia para as tardes que não quer retornar sozinha para casa.
As gotas de água que caem essa noite estão ritmadas com o meu coração. É um bom momento para dormir se você não tiver insônia ou não tiver acordado no início da tarde. Quando eu estudava, eram todas aquelas listas e trabalhos por fazer. Quando no ápice da minha rotina de gente inquieta que precisa de um vira-tempo, era só o estresse pela ligação no duzentos e vinte o tempo todo. Nesse início de fevereiro, é só o tédio que veio disseminar o desassossego. Tudo passa, menina! É só uma fase ou, se preferir, essa sua mania de adolescência tardia. Essa sua síndrome de Peter Pan. A letargia é só mais um refúgio. Qualquer coisa é melhor do que a dor e eu quase concordo. Aprendi a amar essa falta de alguma coisa. Na ausência de todo o restante, eu não poderia também me afastar. A esfinge, como já disse, não permitiria.
Amanhã acho que vou marcar uma consulta com o dentista, mas talvez eu acorde e prefira deixar para semana que vem. Não faço mais dietas. Não tenho mais expectativas superestimadas para o futuro. Um dia termino meu álbum de fotografias para uma ode ao passado. Outrora eu encontro uma exposição de arte que reviva minha fome.

Hoje, sou só eu e o nada. A menina e o vazio.

A solidão me acalma. 

2 comentários:

Anônimo disse...

Interessante texto sobre a solidão..

Dine disse...

Obrigada!

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