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15 de novembro de 2015

Colcha de retalhos

Faz quase duas semanas que fiz aniversário.

Se um estranho do outro lado da rua tivesse me gritado por cima dos carros: “ei, você está feliz com isso?”, em um primeiro momento eu teria balançado meu guarda-chuva de bolinhas para ele, em sinal de negativa. Eu nunca soube lidar com aniversários. Não sabia o que fazer diante daquela atenção adicional, aqueles sorrisos às vezes genuínos ou aquela palavrinha, talvez filha única, daquele desconhecido que só é meu amigo nas redes sociais: parabéns. Parabéns pelo quê? Eu me pergunto, sabendo que outros deveriam ter se perguntado antes de mim, mas sem querer saber as respostas deles, ainda que fossem iguais. Por ter sobrevivido mais um ano? Por crescer? Por mais uma gama de experiências, uma finitude de escolhas? Talvez o parabéns fosse para minha mãe, por ter me colocado aqui, talvez fosse mais justo, já que não fiz nada.
Ainda assim, quando era criança, se você me perguntasse quando era meu aniversário, eu sempre seria objetiva com você: três dias depois do dia das bruxas. Engraçado ter um dia a partir de outro, não é? Mas é que eu sempre gostei delas, da magia delas, da liberdade.
Outra confissão que lhe faço é que tenho dois dias de aniversário: por culpa da astrologia, dos médicos e do tempo. Sabe aquele dia de finados que as pessoas costumam lembrar de seus entes queridos? Ele também é meu! Aquela noite eu já estava por aqui, é minha escolha amá-lo, enquanto o outro dia, não tão negativo, mais cotidiano, foi uma decisão familiar e filho do horário de verão: amo-o por sua representatividade, por ser comemorativo e por me acolher.
Entrementes, apesar de amá-los, não conseguia gostar muito deles. Eu não poderia me esconder em uma cabana de madeira em uma praia deserta e comemorar pulando as ondas do mar, como meu ano novo pessoal que de fato é. Talvez, aliás, um dia eu faça isso.  Mas aí, enquanto não é possível, eu precisava encontrar maneiras de conviver com eles, com todo aquele círculo íntimo de pessoas que se importam e que eu sinceramente amo.
Se é inevitável, a gente precisa se adaptar, eu dizia para mim mesma. A pintura nunca foi um dom do meu coração, mas as palavras são, a leitura é. E elas me ensinaram a ver as coisas sob outro ponto-de-vista. Sempre haveria vários. Os secundários também eram os principais de suas próprias histórias, os vilões só eram vilões quando vistos de um viés, mas talvez não de todos.
Foi assim que eu comecei a despedaçar os meus aniversários. O dia poderia não ser perfeito por ocasião das circunstâncias, mas haveria ao menos um momento feliz. Resolvi me agarrar a ele e, com aquela memória seletiva, tão humana, tão vantajosa, colá-lo no meu mural temporal dos anos. Resolvi ser grata genuinamente por todos os votos de felicidade que recebia e retorná-los aos remetentes com o dobro de afeto via aquele laço invisível que, como correnteza, transporta sentimentos.

Que você seja feliz, que você seja feliz, que você seja feliz.

Aceitei a todas as surpresas e guardei em um potinho, dentro da minha prateleira imaginária que guardo as pessoas, os momentos e as sensações que me ajudaram a construir o restante da casa. Passei a considerar os abraços como caçadores de distâncias, como gestos de empatia. Parei de temê-los com toda aquela ausência infantil que me constitui, eram apenas presentes. Deixei para trás aquele olhar que me troçava pelo espelho e me seguia pelos becos gritando ao mundo sobre minha fraude. Aquela síndrome do impostor poderia até fazer parte da minha vida acadêmica, ela já chegava abrindo a geladeira, mas cabia só a mim contê-la. Tudo bem, você me faz querer ser melhor, mas você não vai mais estragar os meus aniversários, eu disse a ela.
Assim, e por causa de pessoas queridas que aceitaram viver tudo isso comigo, eu passei a utilizar os outros pedaços dos meus aniversários em outros dias. Eles passaram a virar semanas. Por vezes, recebi mensagens atrasadas que implicitamente me diziam: ei, eu estou aqui também!, e elas não tiraram importância de um momento específico, mas criaram outro especial. Também houveram as cartas que tardaram a chegar e mudaram segundas-feiras ranzinzas. A surpresa das pessoas que sempre vou guardar no coração como um exemplo de que o trabalho (e a falta dele) também pode ser maravilhoso. E o dia da pizza, que eu mesma marquei, e chamei todo mundo que não via há tempos e estava com saudades. Nem todos poderiam ir, eu sabia, mas alguns eu ainda poderia rever. E saber como está a vida. E compartilhar um abraço e rir sobre a pizza de sorvete com chocolate e morango que iríamos competir pelo último pedaço. Para os outros, sempre haveria o ano que vem e seus próprios aniversários.
E ao pensar em tudo isso, percebi que ainda não sabia lidar com eles, mas poderia compreender aquela rede de sentimentos e estendê-la o mais distante que pudesse. Porque eu já tinha tudo e assim o foi desde que nasci. E tudo o que eu poderia fazer agora era jogar esse sentimento que transbordava de mim ao vento para que atingisse o maior número de pessoas que, como eu, também eram abençoadas.

Gratidão. 

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