26 de setembro de 2015

A redoma de vidro

            

"I took a deep breath and listened to the old brag of my heart:
I am. I am. I am." 

(The Bell Jar, Sylvia Plath)

Sylvia,

A verdade é que desde que comecei a ler seus escritos, muito tempo após conhecê-la de fato, eu quis lhe escrever algumas palavras. Não sei, talvez por ter me identificado com suas ideias mais do que gostaria ou me seria saudável. Talvez porque alguns de seus pensamentos tenham me levado às reflexões acerca de alguns assuntos que me preencheram de tristeza, enquanto outros me coloriram de indignação. Talvez seja por eu ter minha própria redoma de vidro também.
Eu realmente não sei. Só acredito que o final de sua quase-autobiografia não foi o seu final feliz; como alguns acreditaram que você gostaria de ter terminado na realidade, mas foi a verdade. Você somente me contou alguns anos de sua juventude e, embora eu não possa distinguir propriamente o que veio da sua mente e o que veio do seu passado, posso pensar que, por algum tempo, você conseguiu cimentar suportes fortes o bastante para que sustentassem a redoma acima de você, imóvel. Conseguiu que o ar chegasse a seus pulmões e a vida se infiltrasse como luz em seus poros. Por algum tempo, você pode ter pensado que poderia conviver com essas frestas, que poderia sobreviver. Infelizmente para todos nós, certos acasos são afiados o bastante até para romper as ligações mais estáveis e a sua, frágil como só você poderia ter sido, desenlaçou-se anos mais tarde. Com um baque que chegou a me doer os tímpanos, pude sentir quando o suporte de vidro voltou a se fechar sobre seu corpo, sua mente nublar-se e você se negar a recomeçar tudo aquilo. Dessa vez, não permitiu que outros fizessem reticências do que você queria um ponto final. Permitiu-se ir, mesmo que em suas palavras continue tão viva como nunca poderia ter imaginado estar.
               Sei da sua relação com as pessoas que a cercavam por suas próprias memórias. Compreendo que possa ter se sentido sufocada com toda a artificialidade do mundo, com a opressão da sociedade, com todo o cuidado protetor de sua mãe. Mas, Sylvia, não posso deixar de me perguntar se você alguma vez foi capaz de lhe sentir empatia. Sentiu, Sylvia? Porque tudo o que vi foi uma menina – isso mesmo, menina! – ensimesmada e fraca demais para suportar o peso que lhe foi atribuído. Não, não serei injusta, você estava doente. Mais do que isso: aprisionada. Afogou-se em si mesma e mergulhou cada vez mais fundo. Não soube encontrar o caminho de volta, mesmo quando esteve à margem. Ainda assim, você alguma vez chegou a pensar em todos os sacrifícios que ela fez por você? Em todo o trabalho, toda a proteção, todo o tempo e a vida que ela deixou de lado para que você e seu irmão pudessem crescer com dignidade? E eu sei que você não pensou, Sylvia. Porque você me mostrou seu ponto-de-vista. Eu vi o que você viu. Senti o que sentia. Doeu, sabe. Você quebrou meu coração, mesmo que eu ainda não saiba se pelo seu futuro ou pelo meu.
               Ah, Sylvia. Ela a amava. Você sabia disso, não é? No fundo, no fundo, devia saber. Mesmo que você a odiasse com todas as suas forças ou assim o dissesse. Apesar disso, não posso afirmar que entendo todas as suas nuances porque só fiquei na superfície do lago; minha redoma é porosa e, contrária a você que me parecia mais um girassol, sou como uma violeta e não preciso de muita luz e água para sobreviver, como já escrevi por vezes.
               Também preciso lhe agradecer por, junto contigo, ter tido a consciência de minha existência. Eu gosto de ser invisível, mas isso não significa que eu precise sê-lo o tempo todo, às vezes é bom firmar os pés no chão, impor-se frente ao campo de batalha. Em outros momentos é necessário parar e sentir as próprias batidas do coração. O mundo às vezes pode não ter lugar para gente, como você bem sabe, Sylvia, mas o corpo sempre tem que ser cômodo; é dentro dele que edificamos as nossas muralhas, que permanecemos intocáveis. E acho bem que você sabia disso quando se recusou a permanecer com o corpo imaculado tal como pressionava a sociedade de sua época. Eles cultuavam o corpo e a honra de uma mulher, mas esqueciam-se de sua humanidade. Você foi mais uma vítima desse erro. Mais uma peça do quebra-cabeças que não tinha um encaixe. E eu, como muitos outros antes e seguramente após a mim, sinto muito por isso.

Mas eu lhe agradeço, Sylvia. Agradeço por existir.

Com amor,

A.


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