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8 de março de 2015

Giz

Quando nasci, ninguém me mandou ser gauche na vida.
Não me deram um par de asas
ou o dom das palavras.

Quando nasci, o destino lavou as mãos.
Tinha pressa!,
queria um café
no bar doutro lado da rua.

O caminho que esculpi entre nãos
era tão somente um que defini
naquela etérea paleta de tinta
maculada de talvezes.

mas o que o destino nunca disse
foi que ele nunca tinha me dado uma estrada
ou um universo.

Ele me deu foi um giz,
o espelho do eu-menina
e um reflexo da criadora
de histórias.

E eu, presa em mim,
trancada por dentro,
não notei que ele me sugeria:
vai, escreve a sua!

E eu, crendo ter única opção,
em cima de um muro qualquer,
não entendi que ele me dizia:
faz o que você quiser.

Quando nasci, ele depois me disse,
(talvez tarde demais):
- O seu fado será o da escolha.

E então descobri que poderia
me pintar feito aquarela
se escolhesse
e deixasse
o esboço daquela que não fui
partir.

- E o que será agora?
pergunta-me ele, entretido
com seu café.
A mim, nada mais sobra
além de um dar de ombros
e uma sinceridade que poderia ter abocanhado o mundo,
se não andasse
se não voasse
em escombros.

Eu não sei, respondo a ele,
pesarosa por tudo aquilo que,
hora ou outra,
deixarei pra trás.

Eu não sei. 

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