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13 de setembro de 2014

Isto não é um rouxinol.


Sinto minhas pernas em espasmos involuntários, como o vento que bagunça a cortina tom-caramelo que encontrei no sótão de minha ex-avó, aquela que há muito se tornou memória nos álbuns de família. Sabe quem eu sou, rouxinol? Parece-me que há pouco conversei contigo à luz de velas, tão logo minha voz debandou de meu corpo, tão logo minhas palavras indispuseram-se à vida. Eu agora não sou capaz de suportar o silêncio, rouxinol. Eu, que sempre o amei. Eu, que me comprometi a abandonar as negativas. Pare. Espere! Preciso me afastar por um segundo, preciso ligar a vitrola. Permito que escolha a música, que encaixe-se ao som da melodia, mas já não posso suportar a voz do vazio, rouxinol. Cante para mim, se preferir. Desacelero meu ritmo, se assim for preciso, mas me induza a desistir dos parágrafos, por favor. Apenas uma vez. Apenas por hoje. Minha garganta arde em dosagens cuidadosas, como imagino o arranhar de minhas unhas em suas costas. Sussurro novamente, com o cuidado de abandonar os gerúndios. É noite de abandonar os vícios, de formalizar os novos. Sou como o filho pródigo da Lavoura Arcaica, rouxinol. Sou como a cigana Ana que, mesmo caída pelas mãos de seu pai, não desistiu de dançar. Acredite que não questiono os valores tradicionais de minha família, passarinho, mas os meus próprios. Aqueles que me circundam, que me impedem de ser. Permita que, hoje, te desmanche em tinta. Ao contrário do que pensa, quem jorrará serei eu. Todas as ilusões tom-pastel que semeei com tanto cuidado. Todos os temas talvez-apagados, quase-borrados, sim-catárticos que uso tanto em meus escritos. Sinto agora meu coração em espasmos, rouxinol, mas necessito que entenda o que digo: essa é minha despedida a você. Dei-lhe tudo o que, em minha mais deformada poesia, fui capaz de criar. Você é um conceito, meu amor. Um símbolo. Assim como resolvi lhe chamar. Isto não é um rouxinol! Pode rir, se quiser. Duvide de meus verbos, desacredite minhas certezas. Brincarei com você, assim como brinco com os pronomes. Jogue com minhas inseguranças da mesma maneira que me rebelo contra os parênteses que insistem em me engaiolar. Hoje é você quem tem asas, mas quem voa sou eu, rouxinol. Açoite a simplicidade de meu vocabulário enquanto mancho seu pescoço em tons violáceos. Pergunto-lhe novamente, pergunto-lhe quantas vezes desejar. Sabe quem eu sou, rouxinol? Você é passagem enquanto sou ilha. Somos ambos temporários, mas preciso que me construa como mais do que mero acaso. Você é pedra na minha correnteza e, embora por única vez, impede meu percurso. Permiti que sentasse à mesa imaginária de minha cozinha porque não o amo. Escolhi-o porque não o sinto n’alma. Acolhi-o por sua gentileza, rouxinol. Por vê-lo como um armazém de todos os sonhos do mundo que não são os meus. E, estou segura, eles são tão diferentes quanto nós dois também poderíamos ser. Decidi que era você justamente por saber que não aguentaria ler tudo isso que escrevo tão confusa e desordenadamente quanto sou. Aceitei mostrar-lhe os confins do abismo que me configuro por dentro porque sabia que se limitaria à superfície, rouxinol. Mesmo que tentasse a desventura, seria incapaz de lidar com os significados de tudo o que lhe escrevo, de tudo o que desenterro somente para você. Agradeço por todos os sorrisos e as horas que transcorri pensando em seu conceito apenas para não ser obrigada a pensar em outra coisa qualquer. Agradeço por ser essa migração em forma de gente. Agradeço por não ficar. Minhas mãos agora sofrem espasmos enquanto lhe percorrem, buscando a precisão para separar-me de seu caos. Despeço-me enquanto pergunto-me quem é você. Desculpo-me por abusar tanto das vírgulas que preferiam ter o emprego das reticências para, em vez de pausas dolorosas, representarem uma continuação muda. Acaso leia só o final, desejo somente tons primaveris em seus voos, suas viagens. E muitos parágrafos, muitos inícios.

E muitos conceitos para você que poderia ser qualquer coisa, mas escolheu ser um rouxinol para mim.

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