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23 de junho de 2014

Ensaio sobre jardins de abelhas


parte paralela de Um Tributo a Violetta
mantenho a promessa: um dia te conto a história inteira.




Caro menino-sem-cor,

Prometi a mim mesma parar de escrever-lhe, mas acabei por perceber que meu compromisso é tão realista quanto uma abelha é capaz de não visitar as flores: não é possível, de acordo com meu pequeno conhecimento acerca das coisas.

Sabe, minha visão de você começa a nublar-se. Agora já não posso mais dizer com qual das mãos carrega a paleta de tinta, muito embora ainda seja capaz de lembrar-me de seu sorriso e do tom furta-cor de seus olhos. Sei que isso pode lhe ser doído e saiba que o machuco por motivos egoístas, tão indignos quanto são a maior parte de minhas personagens. Não as culpe, se um dia chegar a lê-las: elas são como eu e deixo a seu domínio a função de descrevê-las como merecem.

Eu ainda não comecei a contar nossa história, somente tenho suas cartas e as minhas. E os contos e os poemas que poderiam ser de ninguém, ao mesmo tempo em que poderiam ser de todos nós. Estou ainda incerta sobre como construir os alicerces de nosso enredo, ainda mais agora que Cecília, minha irmã, ganhará alguns capítulos. Espero que me perdoe por macular nosso drama de forma igual a qual Cecília foi manchada.

Espero que me perdoe por nos considerar tão pueris quanto minha antiga boneca de porcelana que hoje mora no sótão.

Já lhe disse que estou perdida e não mais tenho certeza sobre que ordem eu coloco as palavras? Sinto tanto a sua falta que me dói e já nem me lembro do que cheguei a lhe escrever e o que nunca poderei lhe contar. É agora que você riria de leve e, esquecendo-se de meu lapso de memória, perguntar-me-ia por que ando tão desviada de meu caminho. E por que tantas metáforas, Violetta? Aliás, antes que me esqueça, gostaria de um ou dois torrões de açúcar, senhorita?

Como se você não soubesse que eu pegaria os dois e ainda acrescentaria mais um. E ainda riria novamente, apenas para me provocar dizendo que tanto doce só poderia servir para equilibrar a amargura d’alma.

Bem, não importa mais, assim como a maioria do que já aconteceu, mas preciso confessar-lhe que ando respirando o passado. A semana passada foi um borrão, descompassado borrão. Juro que não me lembro de tê-la vivido, pelo menos não como eu, Violetta, mas como a protagonista ou até secundária de muitas outras tramas que presenciei pelos livros. E há tanto a ser feito, menino-sem-cor! Talvez essa seja a razão de meu desespero momentâneo. Saber de tudo, mas não desejar fazer algo a respeito: esse pode ser um dos mais elementares erros humanos.

Poderia continuar a escrever-lhe por horas e horas a fio sem chegar a algum lugar tão bom como aqueles que possuem cheiro de bolinhos de chuva e maresia, mas temo que minha vela esteja a terminar e sem ela acabarei por preencher o papel de tinta, mas não seria arte porque não sairia de suas mãos.

Seria somente mais uma mancha, como prometem também ser as próximas semanas.

Com votos de que esteja bem,


Violetta

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