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14 de maio de 2014

Síndrome de Peter Pan


Quando eu era criança, gostava de me imaginar criando barcos de papel, quando o máximo que já consegui foi modelar uns chapéus de soldados que, mais tarde, ganhariam olhos e lábios que me sorririam. Eu gostava da escola, de verdade. Era o único lugar em que pude escolher trocar o ato de bruxa malvada pelo passarinho amarelo sem importância nenhuma, mas que tinha asas.

Quando eu era criança, acreditava que o mar, além de belo, era bondoso por aceitar guardar para si todas as lágrimas das pessoas que junto a ele vinham contar suas mágoas. E ninguém me julgaria por desenhar dragões libertando-se de moinhos de vento e caminhos que terminam em oceano.

Quando eu era criança, eu não usava o tempo como um instrumento de trabalho. Preferia utilizá-lo para ler gibis. Não via importância em dinheiro, a não ser que fosse para calcular a diferença das minhas trocas nos sebos e quantos doces eu poderia comprar com algumas moedas.

Quando eu era criança, eu não contava pedras ou caminhava no meio fio como se fosse uma ponte muito antiga e único meio de se salvar de um rio de magma. Eu costumava correr nas brincadeiras. Só que, mesmo correndo, eu não vivia tão apressada, tão atrasada. A tentativa de abraçar o mundo era só em fotografia, e eu conseguia.

Quando eu era criança, eu não escrevia. Quando precisava, eu apenas chorava. Não podia pensar em trabalhar em um escritório, fechado e escuro, e por isso posso ver como mudei. Capaz de abandonar meus sonhos ao relento em pró desse mesmo lugar recheado de corações vazios. 

Aos poucos deixei de ser a menina sem educação nenhuma, mas que sabia boas histórias de piratas. Você não pode imaginar a intensidade de minha decepção comigo mesma. Não tive disciplina, não vigiei meus passos como deveria. E mesmo sem querer, mesmo tentando ao máximo, não fui capaz de evitar.


Eu cresci.

4 comentários:

Luciana Araújo disse...

Tão lindo que me fez chorar <3

Dine disse...

Oh, Luh, chora não <3

Samantha Coelho disse...

Pausa para: já morri com o título.

chorei também, confesso. me identifiquei no texto INTEIRO. pensei que iria acabar marcando um parágrafo em especial, mas o conto inteiro parece comigo... é dificil aceitar que a gente cresce =/

Dine disse...

Eu ainda acho crescer um ato completamente desnecessário, é ):

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