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31 de março de 2014

Às vidas que já vivi


Cantou às almas alquebradas
Dos sonhos, criou o mito
Trôpego e três vezes bêbado
Deixou a vida esvair-se como vinho
por seus dedos.

Teceu em pedra a lei
Que a si mesmo permitiria governar
Provocou aos céus num fétido grito
Desferiu o ritmo, em dois, partido
Morreu, na primeira vez, sem cântico
Implorou: ouça aquilo que eu não digo!

Da segunda vez, já não se sentia poeira
Perdida em um céu de infinitos
Existiu no cume de uma montanha
Governou o vento, aflito
Escolheu não padecer sozinho,
Fez dele um amigo.

Na terceira queda, não mais nasceu homem
Poderia ter sido qualquer coisa:
Dos santos, escolheu o martírio
Da torre, orou como freira
Ou então em Salém, como bruxa
Queimada foi na fogueira.

Não aprendeu outros números, perdeu-se
Ao cair na negritude do tempo.
Cresceu exilado das cidades, com o oceano
E, incerto, desvirou a rotina

Ano
Após
Ano

Contra o que qualquer outro ser faria,
Em sua última vida, farto de deslembranças,
Inventou de ser artista: decidiu desviver o dia.

2 comentários:

Samantha Coelho disse...

Que poema FODA! Socorro! Já reli bem quatro vezes...

Dine disse...

Cê é uma linda, moms!

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