Pages

24 de janeiro de 2014

Coração de Leão

(para um campeonato de textos)


E como o mundo chegou ao fim
Eu estarei aqui para segurar sua mão
Porque você é meu rei e eu sou o seu coração de leão

--X--

“Nós não temeremos. Nós não fugiremos. Sou seu novo rei e nós iremos responder a quem quer que nos grite em desafio. Eu prometo, povo. Nós venceremos.”

Ainda me lembro de como acreditei em suas palavras naquele dia de primavera. Entre o clamor da multidão, você parecia tão sábio! Tão valente em sua armadura de prata e ainda mais destemido ao ser protegido por seu verdadeiro escudo: sua coroa. Foram seus olhos, tão sólidos quanto sua muralha aparentava ser, que fizeram com que eu confiasse em você. Que me disseram para ajoelhar-me orgulhosamente aos seus pés e me consagrar como seu mais fiel protetor. 

Você me disse, em um sussurro quase inaudível, junto ao ouvido: serás meu anjo da guarda.

E ninguém nunca imaginou que as noites passadas fora do leito de sua esposa foram passadas junto a mim.

Eu lhe dei tudo o que poderia ser dado de um mero capataz ao seu rei. Não! Eu lhe dei mais. Eu não lhe entreguei apenas minha fé e minha esperança, mas também meu corpo e meu amor.

Consegue perceber agora como me senti ao vê-lo abandonar seu povo aos bárbaros e fugir com seu cavalo puro sangue enquanto o céu era colorido pelas chamas? Nós não iremos cair, você disse e, certo como estava, nós não caímos. Afinal, nunca existiu o nós, apenas um povo deixado por seu guardião.

Também por um guarda que não se permitiu morrer em luta, pois precisaria prosseguir e segurar firmemente a mão de seu rei nas noites de insônia.

Penso que viu meu olhar acusatório e o silêncio que lhe cercava. E eu não poderia aguentar por muito tempo suas lágrimas.

Eu fiz tudo o que podia para salvar a todos. Sem ter êxito, salvei os que pude salvar. Os que tinham meios para que eu pudesse lhes proporcionar um novo lar. Não quis morrer, eu assumo. Não quis deixá-lo para a morte, eu confesso. Fui um covarde e, mais do que tudo, é por isso que preciso de ti comigo, disse-me aos murmúrios.

Não o entendo, retruquei.

Você é meu coração de leão. Porque, assim como em um rei, tudo em um leão pode ser covarde. Exceto seu coração.

Ou ele não será um leão, disse eu.

Ou ele não será um rei, retorquiu ele.

Assim, eu sabia que prosseguiria enquanto pudesse quantos fins do mundo – do nosso mundo – fossem necessários. E seria você quem se negaria a soltar minha mão.

0 comentários:

Postar um comentário