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13 de setembro de 2013

Das minhas despedidas


Mais do mesmo dos meus pés frios

Era a mesma de todas as reuniões, mas – ao contrário da última – a paisagem jazia florida. Primaveril. A preferida dela. O rancor dele. Não haveria um suspiro inicial dessa vez, mas continuaria presente em todas as suas formas. Era ela quem estava na janela quando ele chegou. Também foi quem começou o diálogo.

(sussurro) – É o que ouvi mesmo? Essa é realmente sua última reunião?
(suspiro) – Sim, pensei bem em nossa última conversa. Não posso continuar apenas falando sobre mudança, acomodado, como outros somente fariam. Preciso agir de acordo com meus ideais, mesmo que isso signifique sair do ciclo.
– Deixar de procurar a resposta, casar-se e simplesmente se deixar levar pela correnteza, certo?
– E parar de escrever.
(prendendo a respiração) – Também vai queimar tudo o que já produziu?
(sorriso) – Sei que não adiantaria em nada. Sei que você tem uma cópia de todos.
– Sim. E os guardarei como relíquias, como a lembrança de um velho amigo que nunca mais verei. Então esperarei para só morrer depois de você e, assim, publicá-los post-mortem. 
– E dará todo o dinheiro da venda para meus filhos que provavelmente odiará.
(dar de ombros) – É um preço pequeno a pagar. Quem sabe o tempo anestesie velhas amarguras.
– Não tinha que ser assim, você sabe. Te esperei por anos.
(sussurro) – Não! Não coloque a responsabilidade de seus atos em mim. Você era tão idealista quanto eu. Sempre soube minhas escolhas.
– Por você, eu deixaria os bebês de lado.
– Que casal nós faríamos, hein? Consegue imaginar eu deixando meu chalé? Porque, desculpe, não te vejo abandonando seu apartamento. E os cigarros! Seus pequenos pedacinhos adocicados de morte. Sempre os amou mais do que a si mesmo. Já pensou nisso?
(sussurro) – Poderíamos dar um jeito.
(balanço de cabeça) – Você foi o meu melhor erro de percurso, garoto.
Ele não disse nada. Talvez porque soubesse que não conseguiria ou talvez porque não houvesse despedida maior do que aquela. Beijou-lhe o canto dos lábios.
(voz rouca) – Adeus, garota.

Enquanto ele se ia para o início de sua última reunião, foi ela quem ficou olhando pela janela. Alguns segundos bastaram para que finalmente distinguisse o sabor. O aroma daqueles lábios.

Tinham gosto de lágrimas. 

4 comentários:

lumoliani disse...

promessas eternas nunca cumpridas e poesia em forma de prosa. Bravo!

Dine disse...

Que lindo te ver por aqui, Lúcia! Obrigada.

Samantha Coelho disse...

Esse seu jeito marcante de escrever.. <3 deu um aperto no coração esse conto :') Adorei!

Dine disse...

Obrigada, moms! Fico muito feliz que cê tenha gostado. Um dia pretendo transformar todos os que fazem parte dessa história em uma narrativa de fato.

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