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31 de agosto de 2013

Mia

Hoje eu conheci a Mia.

Forma estranha de começar uma narrativa, não é? Sem nome, idade, nome do pai. Só dizendo quem se conheceu, como se fosse mais importante que todo o resto. E, acredite em mim, é. Mia é uma moça muito popular: vive conhecendo pessoas. De todas as idades, variadas nacionalidades. Seus rostos mudam. Seus nomes são um punhado. No entanto, Mia é menina adaptada. Não tem distinção de cor, não. Se for gente, para ela está bom. Se for gente ansiosa, infeliz ou desesperada: melhor ainda. Por isso que o importante não é quem sou, mas quem ela é.

Não sei se ela tem cor de cabelo natural ou olhos. Hoje ela estava com cabelos negros e compridos. Comemos pizza. Até comentou como queijo mussarela é uma delícia. Queria saber qual livro terminei de ler e disse que o seu de cabeceira é Alguma-Coisa-De-Vidro. Frisou que o final foi péssimo, mas que a protagonista lembrava muitos amigos seus. E também a personagem que já começou a história morta. Seu tom era pesaroso, ao contrário dos seus olhos ressecados. Perguntei-me se Mia já havia passado por lutos tantas vezes que havia realmente se esquecido do sabor da dor. Não perguntei, lembrei a mim mesma que ela é garotinha popular e que essa característica tem seus lados ruins também.

Nossa conversa começou a mudar aos pouquinhos. De início, nem percebi direito. Mia era tão animada que nem reparei que comia mesmo estando cheia. E quando recusei o próximo pedaço, ela se calou. Seus olhos me encararam, angustiados, e me imploraram para que a acompanhasse no jantar. Mia era complexada e se sentia muito mal por comer sozinha. Havia acabado de conhecê-la, não queria vê-la desconfortável. Cedi a suas vontades e a minha ansiedade: comi.

Depois, tudo se transformou. Ela começou a se culpar por ter comido. Acusava-me por tê-la feito comer. Sem mais nem menos, eu me culpava por eu ter comido. Entrei em pânico. Ela estava histérica por sentir-se suja. Soluçava dizendo que o queijo invadia suas entranhas e a duplicava de tamanho. O terror dela se transformou em meu terror. Sua culpa em minha culpa. Sabe aquela história de que amiga só vai ao banheiro se acompanhada de outra amiga? Pois é, Mia segue essa regra à risca.

Não posso acusá-la de covardia, pois foi primeiro. Vomitou seus demônios, expulsou seus medos. Como tentativa de boa amiga, segurei seus cabelos. Ao terminar, era minha vez. Confesso que a Mia era forte e ela me emprestou sua força por alguns segundos. Aí, nesse ponto da história, você pode optar por me achar forte demais ou fraca demais, mas o fato é que tudo o que pensei minha vida inteira sobre a influência da sociedade em indivíduos isolados e todas as Mia’s que vi passarem a minha frente me vieram como um gancho de direita. Não pude fazer aquilo. Nesse momento, Mia já me olhava incrédula. Ela não costuma se enganar na escolha dos amigos.

Apenas a encarei por alguns segundos. Não mais indecisão em minha face. Disse-lhe que ela precisava ir embora. Que se eu fosse aceitar aquele vício teria que desistir de outro para equilibrar e, sinto muito, mas você não está acima do café ou do chocolate, Mia. E nem preciso falar muito sobre como deixar de escrever estava fora de cogitação, certo?

Tudo o que ela fez foi erguer o queixo e sair. Nem um adeus ou até mais. Como uma menina tão mal educada pode ter tantos seguidores? Enfim, não importa.

Hoje eu conheci a Mia.

Sinto que nunca mais a verei.

4 comentários:

Lisandra São Bernardo disse...

Lindo, profundo, sublime e divino. Elogios divididos por mim e por meu primo.

Dine disse...

Lis! Saudades de você <3

Agradeça a seu primo por mim e muito obrigada!

lumoliani disse...

quando você vai voltar a escrever pra gente Dine? saudades doem.

Dine disse...

Lúcia, sua linda! Volto hoje pra escrita, mas de fantasmar em certos blogs à realeza eu nunca deixei, confesso, haha

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