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20 de junho de 2013

Timothy


Eu tenho medo de escrever – disse o moço. Como se apenas o tilintar das palavras ao sair de seus lábios obrigasse o temor a desaparecer. Seus cabelos eram ruivos. A folha presa à máquina de escrever estava em branco. As olheiras embaixo de seus olhos admitiam a insônia que o atingia. O olhar estava fixo no pôster, preso à parede negra. Era a imagem de uma rapariga em trajes de banho vermelhos. Ela sorria.

É como se eu fosse um balão, sabe? Uma bexiga sugando emoções, sem capacidade para conter-se. E, então, quando não pode aguentar mais, se esvazia. Jorra tudo o que tinha dentro de si. No meu caso, para o papel. Eu sou vazio – continuou.

Constelações de plástico enfeitavam o teto, ao lado da lâmpada que estava apagada. Na embalagem dizia que brilhavam no escuro. De fato, brilharam. Por um mês. Uma distração a menos, havia dito a mãe do moço como consolo. Ela queria que ele passasse no vestibular de medicina. Não era uma mulher ruim só por negar a carreira que o rapaz decidira para si. Era apenas uma mãe que desejava o melhor para seu filho.

E eu não quero ser vazio. Dói. Minhas lágrimas saem à prestação: em letras. Às vezes até em melodia rimada. É um espaço a ser preenchido a cada uso da máquina. Nunca sei o que me aguarda: melancolia? Talvez. Saudade aos quilos. Amargura aos litros. Tristeza aos pedaços. Grãos de alegria, pitadas de amor. É difícil equilibrar. É complicado deslocar o equilíbrio quando a concentração de algum é maior que a do outro – sua fala era devagar.

Aspirava à compreensão de todos os presentes no quarto: o pôster, o crânio que enfeitava a sapateira, o apanhador de sonhos junto à mochila da escola. A poltrona na qual se encostava era reclinável, há semanas a cama não havia sido desfeita. Em segundos, iria continuar o raciocínio. Planejava contar tudo para que, mais tarde, alguém o lembrasse do que havia falado. Seria mais fácil escrever, na teoria.

Estou cansado – mas aquilo foi tudo o que conseguiu dizer, antes de desviar o olhar da rapariga e deixar-se levar pelo sono. 

8 comentários:

Lyra M. disse...

Ah, deuses, que coisa mais linda! E juro: fazia tempos que eu não me identificava TANTO com um personagem como me identifiquei com Timothy!

Huirian Suzin disse...

Magnifico, me ajudou a escrever outra história.

M. Deméter disse...

OMG! Texto perfeição, Dinoca.

"E eu não quero ser vazio. Dói. Minhas lágrimas saem à prestação: em letras. Às vezes até em melodia rimada. É um espaço a ser preenchido a cada uso da máquina. Nunca sei o que me aguarda: melancolia? Talvez. Saudade aos quilos. Amargura aos litros. Tristeza aos pedaços. Grãos de alegria, pitadas de amor. É difícil equilibrar. É complicado deslocar o equilíbrio quando a concentração de algum é maior que a do outro – sua fala era devagar."

Esse parágrafo me ganhou completamente, nem sei qual parte é a preferida. Coisa mais linda.

fazia tempos que eu não me identificava TANTO com um personagem como me identifiquei com Timothy! +1
e fazia tempo que não lia algo tão fofo, lindo e triste ao mesmo tempo.
Gostadíssimo. <3

Dine disse...

Fico feliz que tenha se identificado com o Timmy, não me sinto mais sozinha, haha. Obrigada <3

Dine disse...

Que lindo, que lindo! É tão bom saber que ajudei!

Dine disse...

Maahzoca, sua sumida. É tão lindo te ver por aqui! E quanto amor cê ter gostado, e ver cês se identificando com ele é bom demais. Obrigadíssima, haha

M. Deméter disse...

Dinoca, eu não sou sumida USHAUSHA Eu leio sempre, mas esqueço de comentar quase sempre =x

Sry, prometo que vou tentar lembrar de comentar tudo tudinho. =)

Dine disse...

KAOSAKSASOA mas olha só um jeito de descobrir leitores fantasmas! E nem precisa comentar em tudo, Maahzoca, comenta quando 'cê tiver a fim mesmo. Para mim, já é importante saber que estão me lendo <3

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