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2 de junho de 2013

O Apanhador

Ele tinha roupas vermelhas, cabelos trançados e olhos de amêndoas. Suas mãos possuíam um aspecto parecido com o da palha, mas não importava. Ele as tinha. Assim como o ar jovial que o sorriso em forma de fio lhe concedia.
Não tinha um nome. Era chamado de O Apanhador.
Acredite em mim quando lhe digo que o fato dele ser uma espiga de milho é ínfimo comparado ao seu objetivo neste mundo: ele era amigo de um menino-com-nome.
Às vezes pergunto-me, sem resposta, como seria se o mundo não fosse dividido em meninos-com-nome e meninos-sem-nome. Como seria existir para um ser que nunca teve vida, mas viveu.
Talvez não o entenda bem, mas o foco d’O Apanhador sempre foi salvar crianças de caírem em abismos profundos e sem volta. Sempre aspirou não permitir que elas se jogassem nele por vontade própria. Na primeira vez em que ele veio a este mundo, era um Apanhador no Campo de Centeio. Agora era em um milharal. Salvando meu filho.

Já observou como funciona uma caixinha de música?
Dê corda à imaginação de uma criança e ela irá dançar.

O abandono da figura materna aos cinco anos abriu um buraco em seu peito. Fez-lhe um nó no cérebro. Restou-me um bocado de livros e o desespero de não saber consertá-lo de volta.
E, então, uma ideia.
Eu não tinha um País das Maravilhas, mas tinha uma fazenda. Não tinha o pó de pirimpimpim, mas eu tinha quantos sabugos de milho eu desejasse. 
O que eu não imaginava era que, ao criar O Apanhador, ele também existiria para mim.             
E, então, uma nova questão.
Como explicar aos outros que algo tão comum e aparentemente sem valor (nem mesmo literário, segundo alguns) tampara um buraco existencial não somente de uma criança-com-nome, mas de um homem que tinha até mesmo cabelos brancos?
Seria basicamente o mesmo que mostrar a adultos que, em um desenho, aquilo não era um chapéu, mas uma jiboia que comeu um elefante.
Como narrar algo que nem mesmo eu tenho certeza se compreendi?
Em um momento, era uma marionete.
Depois, alguém que conversava e definia outros seres em aqueles que ele conhecia e aqueles que ele não conhecia.
Veio para tornar-se nosso amigo e conselheiro.
E, então, o fim.

Tão logo como o início. O menino-com-nome já tinha quinze anos e o adulto rabugento começava a cortejar a moça que auxiliava na fazenda duas vezes por semana. Não houve despedidas. O Apanhador deitou-se em sua bacia, cruzando os braços.
– Obrigado por terem me dado uma chance de provar meu valor – disse.
– Obrigado por ter sido nosso protetor – respondi.
               
Não vi seu sorriso, somente o senti crescendo.
– Eu só era uma espiga de milho, vocês me tornaram um amigo.
Não o retruquei. Era a verdade.

E, agora, lapido-a e a deixo a seus pés.
Eu contei minha história.

Se quiser pular no abismo, a escolha será sua. 


...

Para o céu literário. O tema do mês foi milho. Mais textos sobre o polêmico tema abaixo:


4 comentários:

Huirian Suzin disse...

Mara vilhoso!

Lucas Rodrigues disse...

Dine, sua linda Então eu li. Eu gosto quando você escreve dando essa vida aos seus personagens, salvando-os nas entrelinhas, porque eu me vejo em Nôx, querendo ou não você sabe nos representar. Suas palavras cativam e seu enredo é sempre fabuloso, mesmo mesmo. Mas isso tu sabe, espero novidades, é. Fique bem

Dine disse...

Luke, seu lindo! Eu os salvo porque ainda não aprendi a matá-los, haha, mas não saberia representar vocês nem se eu quisesse. A gente só tenta. E não tem como não se sentir honrada quando um escritor que admiramos diz coisas desse nível, obrigada!

Dine disse...

Obrigada, Huirian! Que bom que gostou!

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