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12 de maio de 2013

Vale do Silêncio


Aqui jaz o Vale do Silêncio. O lar daqueles que morreram sufocados por palavras nunca ditas, por gritos que nunca desgrudaram da garganta. Aqui jaz o vale dos que tiveram suas vozes roubadas, lacradas. Perderam sua última defesa. Não tiveram para onde fugir.

 O guardião da entrada não tem um rosto, mas possui lábios que nada dizem. É coberto por uma capa cinzenta que o mistura junto à neblina. O guardião não barra os que vieram para adentrar o vale e, ao contrário do que muitos pensam, também não tem por objetivo impedir alguém de sair. Ele só é um morador antigo que se tornou uma amostra do que acontecerá com aqueles que residirem por ali. A não-voz da experiência.

Uma vez dentro, ninguém pensa realmente em sair do local. Para onde iriam? Perder-se-iam no eterno vazio ou sufocariam na neblina, tão mais densa no lado de fora. Dificilmente alguém que tivesse observado o vale em vista panorâmica o classificaria como grandioso, mas mesmo assim um suicida não seria capaz de encontrar-se com outro. Nem uma criança abusada reconheceria outra abandonada. Não poderia haver sequer uma gota de piedade, identificação ou esperança, não.

Esse seria o primeiro passo para a destruição. O início das tentativas de comunicação. O surgimento de ideias. Assim que conseguissem entrar em contato, o silêncio seria reprimido. Teria seu significado roubado, seu sentido sacrificado. O vale, ganhando voz, deixaria de falar. Seria massacrado pelos comuns. Desqualificado pelos interesseiros. Deixaria de representar um exemplo. Perderia suas metáforas e subjetivismo. Suas acusações perderiam força. O lugar definitivamente deixaria de existir.

Porque o silêncio tem muito a dizer.

...

Participante do Céu Literário, mais textos do ciclo:


Colors of Silence

Shhh!
Destom

3 comentários:

Micael Auler disse...

Apesar de amar o silêncio, este texto não merece que eu me silencie.
Que seu talento seja difundido sem modéstia!

Huirian Suzin disse...

muito bom seu texto,ainda não aprendi a fazer elogios grandiosos, então deixo meu mais sincero "Magnifico".

Dine disse...

MICAAAAAAAAAAAAAAA, seu lindo, que honra te ver comentando! Obrigada!

Huirian, que lindo você por aqui! Muito obrigada, mesmo!

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