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24 de abril de 2013

Dos meus pés frios



Um suspiro que terminava em fumaça de cigarro.

Eis o começo.

Não da reunião, é claro. Para que ela começasse seriam necessários sinos, sem contar no ruído do arrastar das poltronas para o clássico formato circular. Mas, como todos sabiam, bastava um suspiro para o monólogo de dois ser iniciado. O fim era um pouco mais incerto, sem falar em sua inconstância. Poder-se-ia chegar ao final com um cigarro, algumas palavras amenas e pés frios. Se a sorte estivesse presente, talvez um sorriso e uma reunião agradável. Às vezes, todos ficavam à espera d'O milagre. Talvez o monólogo de dois fosse finalizado com uma resposta.

O eterno desafio. A grande dúvida. O objetivo de suas vidas. A alegria de sua sobrevivência. O precursor da verdade.

A resposta.

Suspiro. Olhar perdido na janela.
(sussurro) - Um dia, quem sabe...
Passos aproximando-se, o começo do ciclo.
- Por que não hoje?
(mexendo no cabelo) - Por que não na próxima geração?
(riso) - O juramento foi não termos filhos, lembra?
(pausa) - Nós também prometemos encontrar a pedra filosofal, realizar os doze trabalhos de Hércules, fazer uma revolução, escrever o final do livro e, ah, parar de fumar.
(nova pausa) - Esqueceu-se de quando juramos parar com o diálogo infinito que termina em brigas, vício e não-reunião?
(sorriso) - Mas aí você esquece que, na reunião posterior, concluímos que manter um monólogo de dois não era a mesma coisa que um diálogo. 
(o dar de ombros) - Ainda acho que não é, assim como também creio que estamos fazendo tudo errado.
- Como sempre.
(silêncio)
(esfrega as têmporas) - Preciso de café, esse inverno está sendo terrível.
- E eu, de mais meias. Meus pés estão congelando.
- Devíamos parar com essas reuniões no inverno.

(sorriso) - Só nos reunimos uma vez a cada estação e quer acabar com as do inverno? Por que não parar também com as da primavera, quando tudo está bonito demais para ficarmos trancafiados aqui? Quem sabe as do verão, quando o calor for quase insuportável?

(novo dar de ombros) - Talvez seja melhor deixarmos a resposta em paz e...
(interrupção de frase) - E nunca mais nos vermos. E sermos esquecidos pelas idas do tempo e...
- E nunca mais encontrarmos um objetivo para gastar nossas vidas.
(sobrancelhas arqueadas) - Não gosto do seu tom de voz.
- Não gosto de como tudo está! Emprego mediano, inteligência mediana, vida mediana. Sonhos de tempos joviais.
(sussurro) - Sonhos verdadeiros.
- Sonhos do passado. Vida do passado. É o que somos: passado?
- É o que tentamos evitar ser.
(silêncio)
- Renegamos o passado, não presenciamos o presente e esperamos o futuro. O que somos?
- Esperamos a resposta, não o futuro.
- O que somos?
- Nós não nos conformamos com o presente.
(aumento do tom de voz) - Mortos! É isso que somos.
(exaltando-se) - Não possuímos uma cronologia, isso é uma mentira!
- Você é uma Morta. Eu sou um Morto. Começando pelos meus pés. Estão frios. Talvez devamos nos permitir viver e parar com essas reuniões no inverno.
(ira) - E sermos como os outros! Sem livro! Sem final! Uma herança em forma de pessoas medíocres que chamaremos de filhos e que somente trarão mais pessoas à vida.
- A humanidade é forte demais para nós. Ela nos enterra.
(sussurro) - Então que sejamos cremados.

Ela vai embora (para voltar dez minutos depois com o soar dos sinos). Ele fica, ainda tinha tempo para um cigarro. 

Quem sabe fosse diferente na primavera. 

 ...

Criado para participar do Céu Literário. Mais textos:


1 comentários:

M. Deméter disse...

Pooutzm Dine. Que texto mais profundo e sei lá. '-'
Estamos mortos por não viver a vida, ou estamos mortos exatamente por vivê-la sem motivos. De qualquer forma, estamos mortos. Dá pra escrever muito com isso ai ainda, faz as outras reuniões? =x

Gostei.. ♥

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