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13 de fevereiro de 2013

De minha liberdade


Caro Joe,

Faz tempo que não mantemos contato, não é? Me pergunto se está tudo bem contigo e se guarda muitas mágoas de mim. Espero que não, já que eu ainda estou aqui e nunca ninguém te encontrou. Quanto ao tempo, quinze anos não é nada comparado a toda vida de amizade que compartilhamos.

Eu até queria ter escrito antes, sabe. Logo no início. Mas eu ainda não sabia juntar as letras. Sempre pareceu coisa de gente rica e de que já tem a vida ganha. E ninguém confiava em mim para aceitar mandar minhas cartas para onde quer que fosse, mesmo lendo-as antes de serem enviadas. Pelo menos nisso as pessoas daqui são parecidas comigo, ninguém é besta de confiar nos outros, não. Você também poderia ter entrado em apuros se eu tivesse mandado notícias, mesmo que um mero bilhete. Ah, e talvez você pensasse que eu estava sofrendo (e talvez eu realmente estivesse...).

Não, não me retruque. Sim, eu poderia estar morto. Assim como você pode estar nesse exato momento. Mas a gente sempre concordou que era melhor morrer de uma vez do que ficar sofrendo no fundo do poço.
            
Olha só, vou te dizer uma coisa: eu realmente fui parar no fundo do poço. Na verdade, como bem sabe, apenas vou sair daqui quando meu coração velho e pobre parar de bater. Agora, antes que fique triste por mim como é de seu costume, vou te contar outra coisa: quando você fica no fundo do poço e não tem base para voltar a subir: ou você morre ou aprende a viver dentro dele.
            
Acho que você pode confiar em mim quando digo que ainda não morri. Juro. E também pode parar de pensar e de se sentir mal por eu estar aqui dentro. Eu aprendi a viver.
            
A comida agora tem um gosto melhor. Depois de uns dois anos eu parei de ser usado como mascote dos veteranos fortões que comandam aqui. Esses dois anos foram realmente infernais, isso eu posso garantir, nem te conto tudo o que aconteceu, tenho o pudor de manter para mim. Pudor. Palavra bonita, não é? Aprendi o que significa, estou virando um homem das palavras. Pode ficar orgulhoso. Ainda tenho uma dificuldadezinha aqui e acolá com os pontinhos e as pausas que dizem dar mais significado e entonação (outra palavra bonita, estou orgulhoso) ao que escrevo. 
            
Mas então, depois desses dois anos eu tive a chance de fazer uma coisa com um dos chefes (também tenho o pudor de manter isso para mim, vai que você teve filhos e um deles pega essa carta para ler? Se um dia a gente se ver pessoalmente te conto os detalhes) e daí ganhei respeito. Virei chefe também.
            
Ganhei uma cama, uma porção de ervas, comida de segunda mão de primeira. As coisas boas começaram a aumentar. É claro que para mantê-las a gente têm que fazer umas coisinhas ruins de vez em quando, mas não é como se a gente já não estivesse acostumado.
            
Tubo bem que demorou quinze anos para eu conseguir te mandar uma carta. Acho até que queimaram meu inquérito e todos os envolvidos foram deixados em paz (e isso significa que não saio daqui mesmo), só que em parte isso foi culpa minha também. Eu sempre achei bobagem esse negócio de letras e palavras e livros. Tudo coisa de gente que nunca passou fome. Talvez seja verdade, já que depois dos dois primeiros anos minha barriga sempre ficou cheia.
            
Ah, e como eu demorei a aceitar as palavras! Desde que eu entrei aqui tinha aquele esquema que presos que leem certos livros aí e entendem e resumem bem o que compreenderam têm o direito de ter uma diminuição de pena. E eu nunca dei importância. Do que adiantaria para mim? Tire anos do infinito e ele continuará infinito, até que a morte nos separe, amém.
            
Mas faz uns cinco anos que vi preso que começou a ler e a escrever também. E eu vi uns mandando cartas para a família. E até pensei em fazer com que um desses aí me escrevesse uma carta para você. Só que daí não seria a minha carta. Não conseguiria ditar tudo o que eu queria colocar aqui, sabe? Sempre fui macho o bastante para cuidar dos meus próprios problemas.
            
Até tentei esquecer desse negócio de cartas, tentei mesmo, mas isso nunca saiu da minha cabeça. E então comecei a aceitar aqueles livros que eles deixavam a gente ler. Ô palavrinhas difíceis. Páginas complexas demais. Demorou um ano para eu aprender ler mais ou menos e dois para eu conseguir escrever algo com significado. E isso que eu me esforcei todos os dias! Querendo ou não, tenho todo o tempo do mundo.
            
Demorou mais um para eu melhorar o suficiente para aceitar escrever para você. E agora estou preocupado, Joe.
            
E se você não morar mais no seu antigo endereço com nome de flor?
E se não quiser saber mais de mim? Queimará minha carta sem nem ler?
E se você realmente estiver morto, Joe? 

Hein, Joe?


Acho difícil algum dia eu receber alguma carta tua em resposta a essa e tudo o que poderei fazer é imaginar como sua vida é feliz. Como conquistou uma família e um emprego decente. Como não se mete mais com a polícia e como nunca mais precisou matar ninguém.
            
Espero que você me imagine bem também. Aonde quer que você esteja, recebendo essa carta ou não. Porque sempre dá para aprender a viver no escuro. Mesmo tendo sempre vivido na luz. No começo é meio difícil, mas logo você se acostuma e a luz é que começa a ser estranha.
            
É a mesma coisa com o fundo do poço. Você vive nele, aprende a chamá-lo de lar. Se adapta. Aqui você não tem amigos, só gente na mesma situação que você. Não tem família, é cada um por si. Mas com o passar do tempo você aprende a ser livre mesmo dentro da caverna. E a verdadeira liberdade se torna uma doença que você não sabe tratar. Porque você nunca vai alcança-la e quando consegue pequenos pedaços dela não sabe o que fazer com eles.
            
Essa é a verdade, Joe. A minha verdade.
E tudo o que posso dizer é que aprendi a sobreviver. Que estou bem.

E espero que esteja bem também,
                                                                                                  Prisioneiro 3347

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