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15 de dezembro de 2012

O inverso do eu



O garoto estava sentado em um banco em forma de tronco de árvore. Possuía um cigarro entre os dedos e a parte de seus olhos que deveria ser branca fora preenchida pelo vermelho. Ele via o sol esquivar-se de nuvens imaculadas e subir cada vez mais para o que deveria ser o centro do céu. Era de manhã, ele não deveria estar ali. Não deveria ter cigarros. 



Johnny tinha que estar em uma sala de aula, uma caneta entre seus dedos. Deveria escutar um ser mais experiente que ele dizer-lhe coisas que ele definitivamente não estava interessado em ouvir. Deveria ler e escrever. Deveria deixar a plantação de morangos em que vivia pelas noites e escolher uma carreira a se centrar.

Precisava ter amigos que seus pais ocupados chamariam de decentes. Precisava tomar banho todos os dias e dormir em casa. Precisava abandonar uma vida rebelde sem ideologias e parar de se machucar. Precisava escolher algo para acreditar e ter fé. Johnny riu. Um riso amargo e descrente. 

- Hipócritas - sussurrou, tragando mais uma vez apenas para observar a fumaça libertando-se. 

Estava com fome, mas não tinha sono. Pensou em comprar uma coca-cola na lanchonete da esquina, no entanto, o japa que atendia a clientela sempre o olhava acusadoramente, como se somente sua presença pudesse trazer problemas. 


Além do mais, precisava ir à escola. Não porque temesse represálias, é só pelo caso prático de que os caras provavelmente estariam lá. Ao contrário do garoto, seus amigos nunca faltavam. Não que eles possuíssem algum interesse também, não. Os caras só marcavam presença e conversavam entre si ou dormiam. Às vezes até dava para escutar alguma música se o professor não fosse um chato. 



Pegou o ônibus suspirando, somente o fone em volume máximo para suportar todas aquelas pessoas com vidas medianas e previsíveis que não paravam de falar. Não via a hora de ter um carro, mas Johnny só tinha dezesseis. E nem se fosse mais velho seu pai seria inconsequente a ponto de lhe dar um automóvel antes que o garoto tomasse jeito. 

Não demorou a chegar na escola. Precisou forçar a memória para lembrar-se da sala e mesmo assim não se recordava. Felizmente, visualizou um de seus colegas filhinhos-de-papai entrando em um dos cômodos, fazendo palhaçadas junto aos outros garotos iguais a ele. 

Babacas, sussurrou sua mente. Sentiu-se incomodado com a palavra, mas assentiu, começando a caminhar. 

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, Johnny não falava palavrões. Sua mãe desde cedo o ensinara de que existiam palavras muito horríveis que realmente ofendiam as pessoas e que ele nunca deveria falar. Felizmente para ela, falara-lhe isto antes de seus dez anos e ele adotara como um princípio fundamental em sua existência.

Uma pena que ela tenha se esquecido de lhe dizer, enquanto ele se importava, que bebidas e drogas também eram monstros que destruiriam sua alma, já que depois dos dez Johnny passou a seguir a própria lógica e parou de filtrar informações exteriores. 

Sentiu alguns olhos seguindo-no enquanto adentrava o local e cumprimentava o professor. Classificou-o como um novato, já que nunca tivera aulas com ele, mas não pensou mais no homem sorridente e com sotaque diferente que falava sobre vídeo games, pois era um professor. Deveria ser como os outros. 

Escolheu um lugar ao fundo, cumprimentando os caras. Um deles olhava para a janela e o outro estava com a cabeça encostada em sua mala, quase adormecendo.

Só que Johnny já havia visto o céu e não estava com sono. Ele sabia que não deveria pegar seus aparelhos eletrônicos até saber se o professor se importava com eles. A aula já havia começado e se, por acaso, o homem tivesse dado avisos sobre o tema não toleraria o desrespeito as suas normas. 

Encostou a cabeça em uma das mãos e tentou compreender do que falavam. Era tudo muito rápido e seus olhos acabaram encontrando uma plaquinha um tanto estranha enquanto seus ouvidos captavam a linha do tempo dos vídeo games. 

"Keep calm and call Diório"

O garoto arqueou as sobrancelhas, estranhando. Poderia não estudar, mas sabia que só nomes próprios eram escritos em letras maiúsculas quando não estavam em início de frase. Diório deveria ser o nome do cara que falava sem parar de se mexer lá na frente.

Johnny confirmou a informação quando um dos nerds da turma levantou a mão para perguntar alguma coisa. Ele captou apenas duas palavras da frase cheia de nomes difíceis. Diório e solidão.

Aquele nerd realmente não tinha o ajudado a ficar por dentro do assunto. Ele não tinha nada contra nerds. Nem contra os filhinhos-de-papai. Só que, enquanto estes eram considerados babacas, os nerds eram os iludidos.

Eram adolescentes egocêntricos que acreditavam que sua inteligência iria mudar a sociedade em que viviam. Que iriam mudar o mundo ou fazer a diferença. Na verdade, Johnny não os odiava, mas tinha pena deles. Se iludiam com utopias quando se tornariam exatamente iguais aos outros, com sua vida normal e mediana. Talvez um pouco mais ricos, porém viveriam uma mentira.


Não que ele fosse conseguir viver fugindo disso, não era bobo o bastante para pensar assim. Ele só não planejava existir por muito tempo e não entendia porque as pessoas arregalavam seus olhos, horrorizadas, quando ele lhes contava isso.


A única pessoa que não se assustara com seus planos fora sua avó. Uma das únicas pessoas que Johnny realmente amava. Uma sábia mulher nem um pouco bondosa que criara sua filha com uma educação rígida, sempre crítica mesmo quando a menina crescera. Deveria ser esse o motivo de ter sido mandada para um asilo na primeira oportunidade. 


Só que Sarah não tratava o neto da mesma maneira. Era o único que a visitava com frequência e culpava a filha por sua vida atual. Fora liberal demais e ele ficara assim.


Dessa maneira, gostava da companhia do garoto e aproveitava suas visitas como podia. Sempre tentando compreendê-lo e não criticá-lo de maneira nenhuma. Servindo-lhe chá e biscoitos com gotas de chocolate. Fazendo com que prometesse a ela, sempre antes de ir embora, que voltaria na semana seguinte. 


Quando ele lhe contara seus planos, ela saiu da sala e voltara alguns minutos depois com um livro em suas mãos. Johnny leu o título com curiosidade: o apanhador no campo de centeio 


- Quero que me prometa duas coisas dessa vez - disse ela, encarando-o. - Se não quiser voltar nunca mais, não o forçarei com juramentos, mas prometa que vai ler esse livro e, se continuar decidido a morrer jovem, que vai esperar que eu vá primeiro. 

Confuso, o garoto prometeu. Indo embora com o livro embaixo dos braços. Não lera a sinopse ou procurara saber se a história era algum tipo de autoajuda. Apenas mergulhou no enredo e, em uma noite, Johnny não se drogou, somente leu.

Voltou a ver sua avó na semana seguinte. Devolveu-lhe o livro e a abraçou pela primeira vez em anos.

- Agora eu entendo que não sou único nesse dilema - disse. 

- Vocês são um pouco diferentes em alguns termos, mas pensam que todos são cretinos da mesma forma - ela sorriu-lhe, os olhos cheios de lágrimas. 

- Eu ainda vou morrer jovem.


- Pelo menos, sei que tentei. 


Nunca mais falaram sobre morte ou livros e o chá não tinha mais gosto de pêssego, mas de hortelã.


Johnny pareceu acordar de seus pensamentos quando viu que quase todos da sala erguiam as mãos. Até os caras que nunca pareciam nem respirar!

Virou-se para um dos caras, perguntando-lhe o que estava acontecendo. O outro riu.

- Velho, 'cê devia estar em uma puta viagem para não saber de nada - e continuou rindo.

O garoto apenas esperou que ele parasse, uma de suas características predominantes era a paciência e estava curioso.

Logo, seu amigo parou de rir e, sorrindo, contou-lhe sobre como os jovens viviam dentro de uma bolha cercada de tecnologia e que não tinham tempo para ficarem sozinhos ou até mesmo de pensar. 


- Alguns até tomam banho com o celular por perto! - contou-lhe o outro, voltando a rir. Era mais extremista que Johnny, não dividia as pessoas por categorias. Para ele, todos eram idiotas que não mereciam ser considerados animais racionais, incluindo-o nisso. 


Depois contou-lhe do desafio que havia sido imposto a eles e de como deveriam se comunicar com as pessoas pessoalmente, sem tecnologias. De como deveriam não enviar mensagens ou entrar em redes sociais. De como deveriam tentar descobrir o lado bom da solidão. 


O garoto apenas assentiu, sem opinar. No entanto, quando a lista com os nomes de quem iria participar da experiência chegou até ele, Johnny não hesitou, escreveu seu nome e um "sim" ao lado dele. 

Ele sabia exatamente como seria aquilo. Alguns não conseguiriam chegar até o fim, outros nem tentariam. Uns conseguiriam, mas não notariam nada de novo em sua vida, afinal um dia era muito pouco. Haveria jovens que achariam um horror ficar sem enviar mensagem e que não viam nada de bom na solidão. Provavelmente algum dos nerds diria que encontrou um ponto positivo para não decepcionar o professor Diório. 

Johnny não conhecia o professor, confessava que não prestara atenção em quase nada do que ouvira. No entanto, achara legal de sua parte não obrigá-los a participar de algo, ameaçando-os com a perda de notas. Só o gesto da não obrigatoriedade já o tornava diferente dos outros. Por isso, ele aceitou ser uma cobaia. 

Por aquele cara ali na frente que não se achara no direito de mandar que ele fizesse algo, ele faria seu desafio. Afinal, tinha suas próprias maneiras de se manter conectado, de não se manter só. Já que a essência de tudo era o pensamento sobre a solidão, a reflexão sobre si mesmo, ele não "viajaria" com os amigos por uma noite. Ele não fugiria da realidade se conectando com as drogas, iria para casa por um dia inteiro.



Ele conversaria cara a cara com os pais, estaria consciente. Sairia de sua bolha particular para adentrar na mundana. 

Naquele dia, ele jantou com sua mãe e seu pai. Desejou boa noite à empregada e até assistiu a uma partida de futebol com seu irmão mais novo. 

Ainda era cedo demais para dormir. Nessas horas ele estaria dividindo uma garrafa de bebida barata com os amigos ou jogando online na internet. Quem sabe até estivesse passando um tempo nas redes sociais. 


Então deitou em sua cama, deixando até mesmo a música de lado. Se era para refletir, Johnny refletiria. 


Só que ele não conseguia pensar em coisas legais, pensava apenas no que estaria fazendo se não estivesse ali. Como aquele dia fora estranho e como não sentia nada de especial. Demorou alguns minutos, mas ele entendeu qual era seu problema. 


Johnny percebeu que seus verdadeiros momentos de solidão ele tinha quando estava em meio às pessoas. Pensava sobre suas ideias e sua vida enquanto um professor passava fórmulas matemáticas, enquanto alguns colegas faziam piadas desrespeitosas sobre outros, enquanto esses outros copiavam a tudo como máquinas, sem contestar. 

E descobriu o porquê de não gostar da escola. Não era somente porque pensava que tudo era sem utilidade, mas porque aquele lugar o fazia refletir sobre sua vida e a lembrar de memórias que talvez preferisse esquecer. Entendeu que sempre fugira da solidão. 

Porque ficar sozinho o fazia pensar em como seus pais eram ausentes e de como sua avó estava em um lugar cinzento, sozinha, esperando a morte. De como ele, tão jovem, dizia que a amava, mas só pensava em fugir e morrer. 


Compreendeu que sua bolha era ainda maior e mais difícil de ser furada do que a dos seus colegas amantes de tecnologia e que ele considerava alienados.


Percebeu que a solidão talvez não o fizesse querer salvar o mundo, mas a si mesmo.

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