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21 de outubro de 2012

Clichê estelar



(com participação de Lívia Garcia)



Parecia ser uma noite qualquer. Uma brisa leve bagunçava seus cabelos enquanto seus olhos recebiam destaque pela luz que provinha da lua. Estávamos na praia, sentados na areia. Nosso penúltimo dia de viagem, a comemoração de um ano de namoro que não poderia ser mais perfeita.

Sorri para ele, grata pela benção de ter encontrado alguém com quem chegaria à fase de tricotar meias de lã amarelas, sentada em uma cadeira azul com crianças correndo ao meu redor, enquanto ele finge ler o jornal que não mais enxerga e o cheiro de bolo de laranja chegando ao nosso olfato.

Talvez Zé tivesse interpretado de outra maneira meu sorriso, não importa. Só sei que ele me pediu para focar um pouco da minha atenção nas estrelas. Aquelas que sempre zelam por nós, que não cobram sua dose diária de atenção, que ficam lá, no cantinho delas. Só esperando alguém nota-las para expor o máximo de seu brilho prateado, às vezes meio púrpura, que encanta.

– É para eu escolher alguma? – perguntei, brincando. Parecia ser um daqueles momentos piegas em que juramos amor eterno e nos abraçamos na areia úmida.

– Nem precisa escolher. Não quero te dar só uma, quero te dar todas. Além de um dos personagens do Pequeno Príncipe, ninguém nunca teve a ideia de pegar as estrelas para si. Pois bem, agora elas são nossas. Não precisamos de buquê de flores, alianças ou mudança de status de relacionamento. Teremos sempre as estrelas como testemunhas.

Realmente era clichê, mas era o meu clichê. Não pude evitar que meu sorriso aumentasse e de aconchegar meu corpo contra o seu. Não demorou muito para que meus olhos se fechassem com meu rosto junto ao seu ombro.

No outro dia, Zé me acordou junto com a aurora. Ele tinha me trazido para o quarto do hotel na noite anterior, mas não queria perder tempo. Podíamos passar a manhã na praia antes de voltar à vida real em rotinas conturbadas que quase não possuíam sincronia.

– Vamos para a água? – perguntei depois de um tempo, ele terminava uma garrafa de água e parecia realmente distante dali. No entanto, ouviu minha voz e balançou a cabeça.

– Pode ir à frente, se quiser. Só vou terminar a água.

Assenti, sem ver problemas, e me dirigi ao mar. Era cedo, quase não havia pessoas nos arredores e a água estava um tanto conturbada. Não me importei, não é como se eu fosse uma criança e precisasse de vigilância.

Caminhei até que a água estivesse na altura dos meus ombros. Mergulhando para me livrar das violentas ondas que se formavam.

Nessa brincadeira, esqueci-me de notar a correnteza que lançava meu corpo cada mais distante do ponto referencial que eu havia escolhido no início. Passei a me preocupar um pouco, a andar e a prestar a atenção nas novas ondas que me alcançavam. Tudo estaria bem se a alguns passos não existisse um buraco na areia que me afundou sem qualquer prévia.

Água salgada adentrou em minha boca e narinas instantaneamente, trazendo junto com ela o terror e o desespero.

Como se o tempo tivesse parado, eu não sabia mais se estava há poucos minutos ou muitas horas na água. Meus pensamentos não faziam mais qualquer sentido, e o nome de Zé não saia de minha cabeça, embora eu não conseguisse formar qualquer pensamento coerente. Eu me debatia, tentando manter o equilíbrio, mas quanto mais tentava subir à superfície, mais meu corpo afundava.

Meus pulmões imploravam por oxigênio, ao mesmo tempo em que minhas narinas ardiam por tentar respirar. Aos poucos eu perdia a noção do espaço; não sabia mais em que direção ficava a superfície, ou se estava virada na direção da praia. A agonia e o desespero agora eram maiores do que qualquer outra coisa, e quando estava prestes a perder a consciência, senti puxarem meus braços para cima, e o vento bater em meu rosto. Eu arfava, inalando a maior quantidade de ar que podia, ainda me debatendo.

Eu conhecia o corpo que me segurava, não era possível esquecer. Mal pude sentir seu conforto antes de ser empurrada com força para frente. Um rumo havia sido me dado, meus pés voltaram a tocar a areia no chão. O ar voltando aos meus pulmões com calma.

A única vontade que eu sentia era de adormecer antes mesmo de sair do mar. Meus pensamentos nublados não conseguiam raciocinar. Até que ouvi um grito. Era um homem mais velho, magro. Tentava sustentar sozinho o corpo desacordado de um jovem. Mas não um jovem qualquer. Zé!

Eu não tinha forças para voltar, tentei berrar para que outras pessoas ouvissem. Alguns minutos se passaram até que outro homem chegou perto deles e segurou Zé. Tiraram-no do mar agora sem esforço. A massagem cardiorrespiratória foi feita, mas ele não reagiu.

Logo um helicóptero de emergência chegou, levando-o e eu, em um momento de lucidez, juntei-me a eles.

O torpor foi substituído pela dor depois da noção de que Zé não iria mais acordar. O raciocínio voltando junto com a ardência na garganta e a compreensão vinda da manchete do jornal noturno de que um jovem morrera preso em um buraco no mar enquanto tentava salvar a namorada.

A namorada fora realmente salva. Ele não.

Hoje, quando olho para o céu, não posso evitar o sentimento de culpa que invade meu peito ao lembrar-me de Zé. No entanto, sei que ele vive em sorrisos abraçados à lembrança de um amor que não morreu.

                Foi viver junto as nossas estrelas. 

2 comentários:

Herica P. disse...

Herica curtiu esse clichê!

Pena que enquanto passava pelo blog acabei esbarrando o olhar no fim do texto e já sabia o que iria acontecer. .-.

Dine disse...

OKASOAOKSAOKSAOKSOAKS ah, maspoxa vida. A parte mais manera veio com spoiler :c -n

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