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24 de outubro de 2012

As incertezas


O que você faria caso a morte estivesse próxima?

Talvez tomasse um café. Ou um chá. Arrumaria o cabelo. Sentaria em sua cadeira de balanço. Comeria um chocolate. Escutaria sua música favorita.

Talvez sentisse náuseas. Escrevesse um livro. Observasse um cogumelo. Faria ações caridosas. Imploraria para que ela o deixasse em paz?

Talvez a melhor opção fosse dormir. Ou cantar. Tomaria um banho. Plantaria uma árvore. Faria uma viagem de última hora ao redor do mundo.

Talvez fizesse uma viagem de balão. Observasse o céu. Encomendasse um caixão. Jogasse uma partida de xadrez. Aceitaria doar seus órgãos?

Talvez fosse melhor não contar para ninguém. Ou para si mesmo. Choraria escondido. Escreveria cartas. Pediria extrema unção. Quem sabe até varresse o chão.

Talvez caminhasse sob o sol. Bebesse até cair. Falasse todas as palavras que não lhe deixaram falar por anos. Por que não uma tatuagem?

Talvez virasse um monge. Ou uma freira. Acampasse em um precipício. Compraria uma gravata. Faria um bonito laço. Divagaria na amargura e na solidão.

Talvez buscasse uma capa de invisibilidade. Tomasse chuva. Observasse um arco-íris. Amasse alguém de última hora. Acenderia uma vela em sua homenagem?

Talvez voasse em um avião de papel, do cinza ao azul.  Ou do infinito ao léu. Recordaria mais uma vez suas memórias. Agradeceria pela vida que teve.  

Talvez ignorasse os fatos. Mudasse para a Terra do Nunca. Se transformasse em um pirata velho, sozinho e acabado. Por que não enganar a morte?

Mas se sua vida foi longa, recheada de talvezes e meias verdades, talvez você me entenda. Talvez faça o que eu fiz.

Pois bem, contrariando expectativas, eu não reguei o jardim.

Eu a convidei para entrar.

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