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25 de setembro de 2012

Esperança Artificial



Para quem não tem seu tesouro, a vida é só uma esperança.
(Chico Buarque – Canção de Natal)

Sabe, minha contagem regressiva é feita de sonhos. Meus números, de objetivos. Meu coração, de papel. E minha vida, somente de esperança. Pura e límpida, como água. Por isso, não me pergunte se me refiro às horas, minutos ou segundos. Perdi-me no tempo de forma irreversível, só sei que novos anos estão começando pela aura das pessoas que está tão fascinantemente lotada de boa vontade, promessas e, como minha vida, de esperança.

5

            Meu coração desanda, minha alma se aquece. A vontade de chorar é inquieta, mas eu sei que não sairiam lágrimas nem se eu quisesse. Elas já se esgotaram. Provavelmente cansaram-se da minha companhia. Não seria a primeira vez.

4

Brinco com meus dedos, mexendo-os como se ainda existisse um cigarro por entre eles. Oh, não. Chega de sujeira nesses dedinhos tão pequenos, chega de cheirar a fumaça. Chega de vícios, prometi para as estrelas. Para o mundo pronto para a entrada de um novo ciclo; uma nova esperança. No entanto, vamos em frente. Não gosto desse número.

3

            Os amores que já passaram pela minha vida aparecem em minha mente. Enquanto encosto-me à sacada, com a – clichê – taça de champanhe, sorrindo amargamente para mim mesma. Tantos homens para uma moça tão jovem. Tão bonita, diziam. Como cheguei a esse ponto? Sozinha, distante... Apenas eu e a melancolia. Apenas eu e meu baú de memórias que deveriam ser bonitas, mas que, com o passar do tempo, se afundaram em um rio de desgraças que deixaram todas manchadas. Sem me dar coragem alguma para relembrá-las.

2

            Minha visão fica turva, nublada. Olhos ressecados, talvez. Já não consigo dizer coisa com coisa, meus pensamentos ficam exatamente como minha visão. Pessoas soltaram fogos antes da meia noite, sei disso porque eles são poucos ainda. Nada comparado ao espetáculo que está para chegar. Ao espetáculo que me fascina desde criança. As figuras materna e paterna aparecem ao meu lado, espectros que me lembram como os perdi, os dois. Cortar laços enquanto vivos significa se arrepender amargamente depois que estão mortos, uma lição a se propagar.

1

            A próxima perspectiva que chega para me assombrar é a das noites de ano novo nos anos anteriores. Cada dia uma esperança perdida de renovação, uma companhia de momento, uma vírgula numa história que nunca teve um começo decente. Nunca soube exatamente o que me fez ser de menina pobre, descalça e com uma família feliz a moça-quase-mulher, de salto alto e sozinha em uma sacada. Quem sabe a impaciente tolerância com os defeitos de outrem ou somente uma falta de sorte modesta. Quem sabe.

0

            Os fogos de artifício vêm à tona, o barulho ferindo meus ouvidos, a imagem resplandecendo em meu fascínio. Sou o clichê do empresário rico e solitário, em versão feminina. Carreira brilhante, o restante é só detalhe. Mais um gole de champanhe, mais uma divagação filosófica. Chego à conclusão sobre mim mesma; não passo de uma tentativa. Aquela que tentou. Se obteve sucesso ou não, vai depender do ponto de vista. Uma tentativa que não se sente feliz ou realizada, se me permite dizer, mas que um dia teve a vaga impressão de sentir. Mas chega de me lamuriar, preciso continuar completando minha tradição. Preciso continuar observando os fogos. Eles me dão a esperança de um futuro melhor. Afinal, para quem já não tem tesouro nenhum, lotado de amores, pessoas, sentimentos ou, até mesmo, memórias para se orgulhar ou proteger, a vida passa a ser somente... uma esperança.


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