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24 de maio de 2012

Distrações azuladas



            Ao caminhar calmamente pela calçada em um assombroso dia de maio, eu não pensava em muita coisa valorosa, só queria uma ideia, uma ideiazinha que fosse, para conseguir escrever meu texto meio jornalístico meio literário. Não sei, quem sabe ver um furacão vindo do além ou testemunhar um assalto a mão armada de um banco importante, qualquer assunto que eu pudesse dramatizar um bocado. Mas contrariando todas as expectativas de criança que quer descobrir outro mundo para se sentir importante, tudo o que eu vi foi uma bola.

            É, uma bola. Feita de tecido, todinha azulada e torturada por aqueles meninos que muito provavelmente deveriam estar a procurá-la. A coitadinha veio rolando de mansinho para o meio da rua, passando quase despercebida, se não fosse eu observando-a. Percebi que um dos seus rasgos sorria para mim; um sorriso travesso, daqueles que dizem claramente: “vou aprontar”. Não deu outra. Logo veio um moço em cima de uma bicicleta, tão distraído com seus foninhos e o olhar distante, que não escutou meu grito, nem viu a bola. O resultado foi um atropelamento, duas batidas e uma moto destroçada.
 Vou explicar: de último segundo, o moço da bicicleta visualizou algo azul em seu caminho e desviou bruscamente, indo de encontro instantâneo com um carro que passava, este acabou por atropelar a bicicleta e por reflexo jogar o veículo para a outra pista, em que vinha outro carro que não conseguiu frear a tempo e o atingiu de frente. E o coitado do carinha da moto que estava desavisado, conseguiu se jogar dela antes que ela derrapasse, colidisse com o traseiro do automóvel e fosse subjugada por um caminhão que não estava nem aí para o que ocorria.
 Passado o susto, começou a gritaria de quem era o culpado e quem iria pagar a conta. Estavam tão nervosos que nem repararam na jovem de semblante assustado que fora a única testemunha do acidente, sem falar da singela coisinha redonda que acabava de chegar ao meio fio. Sem pensar muito naquela confusão, peguei-a em meus braços e cantarolando saí dali.

            Agora eu já tinha minha crônica. E tudo por causa de uma bola.

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