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1 de fevereiro de 2012

Metafórica


Ela era estranha e articulada.
                Com cabelos originários de lãs coloridas e olhos negros de um botão que um dia já foi bonito. Possuía um vestido cinzento com tons azulados que tentava lhe deixar menos indecente. Tentava. Era facilmente carregada para todos os lados por qualquer um que tivesse um braço disponível para acomodá-la.
                Não falava, achava inútil, já que não tinha nada para dizer que os faria querer ouvir. Seu sorriso era feito de uma única linha rosada em formato de arco, tão falso como o restante dela própria.
                Só havia um único detalhe que a salvava da solidão que a consumiria por ser abandonada; seu riso. Igualmente a de sua dona que se achava sua mãe (ou seria ao contrário?), seu riso era um atrativo absolutamente dominador de personalidades, ninguém tinha a menor chance diante dele. Era escutá-lo e rir junto. Era escutá-lo e fechar os olhos para sua estranheza de boneca de pano, maravilhando-se com aquela música. Deixando-se hipnotizar. Era escutá-lo e saber que aquele som era mais do que um mero riso. Saber que seus dias estavam contados.
                Afinal, como sua costureira, ela não tinha somente um riso.
Ela tinha um presságio de morte.

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