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11 de outubro de 2017

Diario de viaje (o un testigo)


12/09/2017 (o un poco antes)

Mar del Plata es una ciudad linda. Los perros de las calles son muy gordos y bien cuidados. Es una playa que tiene las aguas frías y el viento imposible. La gente a menudo no usa paraguas cuando llueve, el viento no los va a dejar enteros por mucho tiempo. El mío se quedó roto en un día. Hay muchos mayores, pero los entiendo. Yo también volvería después de conocer el mundo para caminar por la costa y respirar dos, tres, veinte veces sin recordar nada más. Guiño mis ojos y miro los lobos. Estoy aprendiendo a tomar mate. Acá ya perdí mi abrigo, mi bufanda, mis llaves, mi cartuchera y mi teléfono (shhh no cuenten a mamá) y no es como si hubiera perdido parte de mi vida. Son solamente cosas, puedo sustituirlas, pero no puedo sustituir lo que siento siempre que miro el mar (y lo hago con frecuencia) o todas las palabras nuevas que abrazo a cada día. Sí, las palabras. Escribo muy poco porque tengo ganas de escribir siempre que no es posible (en la ducha, el colectivo o el cementerio de la recoleta de buenos aires), pero la escritura está siempre conmigo. Nunca pensé que visitaría el Café donde Borges se sentaba a escribir y a charlar con sus amigos también escritores, conocería la librería que ya fue un teatro, compraría un libro de Silvina Ocampo, la escritora la cual siento que vivió a la sombra de su hermana (como Charlotte Brontë, a pesar de su proprio talento) y no puedo esperar para conocer la casa de Victoria Ocampo acá en Mardel. Ya estuve con argentinos de distintas partes del país y franceses y mexicanos y alemanes y belgas y brasileros. Vivo con una chica paraguaya y una boliviana. Son cosas que nunca podré aprender en una clase de español o en una de las clases de economía y finanzas a la cual asisto en la facultad. Tendré que hacer una presentación oral sobre derechos humanos y todavía no me puedo olvidar del agua que es por demás salada para mi gusto brasilero. Por supuesto Violeta Parra siempre me viene a la cabeza si estoy distraída caminando en las calles. Gracias a la vida, ella dijo. Y estoy de acuerdo. Mi primer vuelo sola fue cancelado. Ya estuve por una noche en un aeropuerto. Y una hora en una comisaria distrital. Ya comí más alfajores de los que soy capaz de contar. Ya miré una luna que era un sol y un sol que para mí siempre se volverá una luna. No tengo el acento de un hispanohablante y ni sé qué hacer para conseguirlo. ¿Hay que hablar cantado? Al menos ya aprendí muchas palabras feas en esa lengua y nadie me podrá insultar sin que lo sepa. No sé cómo será volver. Cuando la hora llegue ya sé que voy a llevar conmigo toda una ciudad, muchas nacionalidades, un refugio relleno de palabras, algunos libros de lugares distintos (amén mercado de pulgas) y una historia de un cuadrimestre que va a valer por una vida entera. Sin embargo, también sé que acá, además de todo, voy a dejar un pedazo de mi corazón.


Gracias a la vida que me ha dado tanto. 

30 de abril de 2017

Quando eu ainda escrevia,



Quando eu ainda escrevia, eu conhecia uma ilha. Era possível me encontrar em lugar-nenhum, através de algumas passagens pontuadas em um mapa. Para um visitante podia ser meio difícil, mas era possível encontrar a ilha. Ela tinha residentes fixos e algumas âncoras que a mantinham por ali. Todos os dias os moradores checavam as âncoras para terem a certeza de que estavam firmes. No dia que precisei partir, disse até logo e eles me disseram para encontrar o lusco-fusco do dia que decidisse retornar. Enquanto ainda me lembrava de suas palavras, pude ser uma exploradora de todos os lugares-nenhuns que existiam perto de casa. Enquanto estava na ilha, a realidade não podia me engolir.

Quando eu ainda escrevia, não tinha essa hesitação ante uma folha de papel em branco. Ela nunca foi só um pedaço de papel um tanto intimidante, um bocado azedo, um pouquinho alérgico. Era um espaço publicamente aceitável de se vomitar palavras. Não tinha de pensar duas, três, dez vezes no que gostaria de dizer ao mundo, porque eu nunca realmente me direcionei a ele, mas a mim, mas a você e talvez ao estranho do outro lado da rua. Eu ainda vivia naquele espaço-tempo atemporal da infância, cujo futuro é aquele tio desorganizado que mora longe e que não saberia se aproximar de nós nem se tentasse. Ocasionalmente respirava em cenas, lavava calçadas lutando com dragões ou a louça em uma conversa cínica com um personagem que sempre foi muito mais do que mera invenção.

Quando eu ainda escrevia, trocava o coração cheio de realidade por promessas, platônicos e amanhãs. A decisão de matar era minha. Mas eu costumava deixar viver. Ser escritora de finais felizes porque, se eu pudesse escolher, também gostaria que esse fosse o meu final. E quem disse que gente também não é personagem? Acho até que valeria a pena não ter um final tão bom assim se o desenvolvimento fosse memorável. Parece até que foi esses dias aí que tive uma reunião com o elenco de um curto romance que já cheguei a terminar, mas não coloquei um ponto final. No início, todo mundo sabia qual era seu fim e atuava conforme o script, mas foi só eu virar as costas para dar atenção a qualquer outra fase da vida para que todo mundo parasse para pensar e decidisse que, veja bem, não queria terminar bem assim. E eu decidi que não queria terminar assim também, e agora todos estamos em uma fase de nova adaptação uns aos outros. Eles já sabem seu novo término, mas estão usando esse tempo para viver além dele. E eu aqui criando coragem para colocar no papel. Esse papel que se desacostumou de mim e eu a ele. Que me dá ansiedade quando me vejo a sua frente e sei que tudo o que ele quer fazer é correr para longe (como o tio distante). Eles dizem que escrever é talento, mas esquecem de entender que a gente também esquece. A gente desaprende e depois não sabe como voltar atrás. Dá para fazer fisioterapia de escrita? Voltar para a escola e reaprender a juntar as ideias? Não só as ideias, é verdade, mas também nossa própria voz.

Quando eu ainda escrevia, não o fazia todos os dias como hoje. Eu o fazia quando sentia que precisava vomitar realidade. É a minha forma pessoal de desabafar. É a arte que me escolheu também, a seu modo. Agora preciso me adequar a moldes ditos técnicos de um ofício e a uma nova linguagem que não me cai muito bem (onde estão as metáforas?). Tive que apagar até mesmo minha voz ou ao menos essa é uma tentativa diária. É que os moldes já vêm com sua própria narrativa e, a bem verdade, não passamos de uma representação daquilo que já está escrito. Não posso escolher ser uma representação, mas foi escolha minha decidir não pensar muito sobre isso. E não desistir e tentar fazer outra coisa. Guardei com cuidado em um baú a minha natureza. Como ela é distraída e um bocado confusa, volta e meia ainda reflete no espelho e as pessoas acabam reparando. Mas não a escrita, ela me acena pela janela, me diz para tomar bastante banho de chuva, só que ela não volta comigo para casa.  

Quando eu ainda escrevia, mesmo assim, eu sempre estive à margem. Sabe como é, por lá se sai pela surdina. E um secundário sempre teve muito mais liberdade que um principal. A atenção de um público é um fado e um fardo. A diferença é que outrora não narrava apenas o passado, mas revivia o futuro c o n t i n u a m e n t e. Estava à margem e tinha liberdade e um plano e um futuro muito distante para realizá-lo. Então, uma explosão. A transição a outra fase, mais adulta, com todo o desconforto e aquela quantidade desesperada de desilusão. E eu nunca vou saber quando o silêncio passou a ser também apatia e, principalmente, quando a apatia também contaminou as palavras. Hoje, a distância daquela rotina de todo dia me trouxe uma sacola de tempo e o gosto da vontade. Regredindo, percebi mais uma coisa.

Quando eu ainda escrevia, eu era uma ilha.
E eu ainda quero reencontrá-la.


20 de dezembro de 2016

Mrs. Woolf


Virgínia,

Acabo de lê-la mais uma vez. Sua voz narrativa tinha outro tom: era a escritora ensaiando em um mundo de homens e, como necessário, contava sobre mulheres. Não continha todo aquele teor pessoal de Mrs. Dalloway, mas era você por inteira. Amalgamava sua história nas entrelinhas.
O nome do livro era “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” e, como pode entender, consiste numa reunião das suas cartas e críticas e resenhas para alguns eventos que fizeram parte de sua vida. Gostei particularmente do primeiro texto e, embora toda a obra caminhe nessa direção, pareceu um precursor de “um teto todo seu”.
Confesso que em algum momento próximo vou precisar reler todas as 100 páginas que foram tão breves. Tiveram diversas passagens que me fizeram respirar com maior profundidade, perguntar-me se havia entendido o que ali estava contido e, sem separar os lábios, soltar ao vento uma exclamação: ah, virgínia!
Se você não tivesse ido tão jovem, se não tivesse sido tanto, se não fosse toda a força presente em sua escrita, esse livro somente seria mais um ensaio feminista. Talvez hoje fosse, porque o assunto está cada dia mais em pauta, cada vez mais universitário, mais cotidiano, infiltrando-se aos bocados nos recantos mais perdidos de nossa sociedade patriarcal. Ainda temos muito o que fazer, preciso ser franca. Avançamos alguma coisa nesse quase um século que nos separa, mas ainda não o suficiente.
Nós também discutimos as jornadas de trabalho, o aumento salarial, adentramos em mercados majoritariamente masculinos e claramente há muita gente que acredita em nossa inferioridade intelectual; que mesmo uma mulher inteligente nunca será tão notável como o mais notável dos homens. No meu país, ao menos, não estamos mais discutindo a Lei do Divórcio. Em troca, há um evidente regresso no que tange à previdência social. Sim, eu sei que seria uma solidariedade fictícia a que lhe envolveria, já que sua renda era de 500 libras anuais e você, como bem frisou, não precisava trabalhar, não se enquadrava àquela realidade da União das Trabalhadoras de 1930. Mesmo assim, acredito que você gostaria de saber, gostaria de refletir e considerar o assunto da mesma forma que agora faço, após você me fazer sair por algumas horas de minha realidade e adentrar a sua.
Espero que você não se importe se eu lhe escrever às vezes, tenho a impressão que é o que vou desejar quando ler “O quarto de Jacob” e “Rumo ao Farol”. Aliás, é engraçado como você e Plath são tão diferentes, mas me causam essa familiaridade e esse estranhamento. Com ela, meu peito gritava, consciente de si mesmo e de sua autoficção. Com você, eu ouço o silêncio desenfreado de suas batidas.
Com ambas, eu volto a sentir.

A.

11 de setembro de 2016

Ad perpetuam rei memoriam


Vovô era motorista de caminhão.

Trabalhava para médicos, gente letrada. Trabalhou muito. Levava remédios, frascos e o que precisasse para todos os cantos do Brasil. Não sei se sempre foi calvo, mas eu poderia apostar que a magreza o acompanhou durante toda a sua vida.
Ele casou com vovó quando ela tinha vinte e cinco anos e trabalhava em um posto de saúde de Londrina. Era vida dura, ele disse, daquele jeito dele que só quem conhece os dois poderia compreender de verdade. Um mal terminava de falar, o outro já iniciava a próxima oração.
- Eu podia ter pego o diploma de digitador se eu quisesse, meu amigo falou que ‘tava prontinho pra mim – disse vovô.
- E do que adiantaria procê que é praticamente analfabeto? – retrucou vovó.
Com eles sempre era assim. Um sempre brigando com o outro. Só resmungos e olhares duros quando se tinha uma versão diferente da história que o outro contava, ainda que eu tenha sentido o calor da lembrança, o brilho da saudade de quem não se arrepende uma gota de tudo o que viveu.
Eles trabalharam muito. Construíram casa em Curitiba. Construíram casa na Praia. Assim mesmo; os dois. Compraram os terreninhos que podiam comprar e construíram uma chácara, onde eles tinham tanque de pesca, galinhas e milho. Economizaram sempre, disse papai, fazendo sinal de mão fechada enquanto eles me contavam tudo.
Pobre de mim, que sempre achei que vovô tinha sido um pedreiro-talvez-carpinteiro e vovó, uma enfermeira. Mas ele também foi mecânico. Ela, se eu for pensar bem, fez muita coisa na vida.
Era uma vida dura, mas, ah, como era divertido – disse vovô, risonho, naquele sotaque envelhecido de sítio.
Vovô e vovó já foram de caminhão até Porto Velho, me contaram. Precisavam levar carga até Manaus. Dormiam no caminhão para economizar a diária (tudo ia para a construção da casinha de Curitiba, a primeira), cozinhavam no caminhão porque não tinha outro lugar para cozinhar. Era um calor dos infernos por lá.
Já com dois de seus três filhos, papai e tia Néia, saíam de manhãzinha para a Praia de Leste para passar o dia. As crianças, me disseram, ficavam a tarde inteira no mar e, na volta, passavam mal o caminho todo. Chegamos à conclusão que por insolação e a mistura de um bocado de água do mar com comida, mas não seria isso que os impediria de fazer a mesma coisa no próximo fim de semana. Talvez ir para Arapongas. Talvez para Londrina.
- Não é de não se entender porque a gente tá do jeito que tá – disse vovô, lembrando disso tudo e das bebidas e dos cigarros que ambos compartilharam em toda essa jornada.
- E só com quase oitenta anos – disse papai, porque a idade justificava mais a saúde do que tudo aquilo e mais o mundo que levaram nas costas. Eu só pude concordar. Quando vejo vovô e vovó não me lembro que nenhum dos dois terminou o ginásio. Não me lembro que ambos sabem bulhufas de política ou nunca saberão mais do que meia dúzia de palavras em inglês.
Quando eu olho para vovó e vovô, na verdade, eu sinto que tudo isso não vale de nada para o tamanho de força que cada um tem. Isso importa um cominho quando eles têm toda essa carga de vida dentro deles. Eu sei que muita gente, embora muito mais letrada, embora muito mais rica financeiramente, nunca vai ser metade da gente que eles são. Nunca vai viver metade do que eles viveram em uma só viagem de caminhão, em única viagem à praia no dia de domingo.
Quando eu olho para vovó e vovô, vejo duas narrativas que se uniram para formar uma que nunca poderá ser esquecida por aquele que a leu.
E eu agradeço por ter ouvido, por ter sido preenchida por um amor que transbordou. 

23 de maio de 2016

Relato de uma borboleta


Foi com uma das autoras da minha adolescência que aprendi a arte de fazer o que podia com aquilo que eu que tinha. Parecia tão óbvio que é de se espantar que a gente não pense a respeito nem quando sentado em um ônibus encarando a paisagem lá fora. Eu sempre vivi em meu próprio mundo, aquele que criei sem querer e abracei com todo o amor que eu poderia fabricar. Ele tinha um cenário multicolor e seus habitantes me ensinaram a rascunhar suas histórias. Ele tinha personagens de naturezas distintas e suas vontades me ensinaram a empatia (hoje, ainda em construção). Nele, eu aprendi o valor da utopia. Na realidade, me contaram como é ela quem faz a gente caminhar (ainda penso sobre isso, galeano, mas você se foi muito cedo).
Ele não foi somente um refúgio, mas uma lembrança do que eu gostaria de fazer com a minha vida. Não adiantaria de nada a tentativa de desenhar um chapéu se no esboço eu só visse uma cobra que comeu um elefante. Não adiantaria de nada aprender a integrar quando minha habilidade era a de construir um castelo de cartas (ou uma sequência de fibonacci de dominós ou uma torre de agravos de instrumento). Eu tinha um mundo. Ele não era tangível para mais ninguém, mas me servia de escudo para todo o impacto da realidade. Foi dentro dele, de portas trancadas a sete-chaves, que aprendi a fazer o que podia com aquilo que tinha.
Em outras palavras, passei a buscar onde melhor me adequava em vez de correr atrás de coisas que, para alcançar, eu teria que trocar todas as minhas peças. O tempo, que constantemente briga comigo porque exijo mais dele do que ele pode me dar (eu só tenho algumas horas!, ele me diz, da próxima vez, vê se dorme menos...), deixou de me olhar tão enviesado e passou a me ajudar a filtrar a rotina, ainda que eu viva sempre atrasada (é tarde é tarde é tarde!).
Trabalhar se tornou um verbo como outro qualquer, porque entendi que sempre estaria só de passagem e, enquanto estivesse ali, eu só precisaria fazer o que podia com aquilo que eu tinha. O mesmo com as provas da faculdade que só deixam um rastro meio amargo, mas não provam nada. Quase aprendi a lidar com o direito, essa ciência de realidade que quase me afogou, mas toda essa competitividade em tudo o que fazemos só pode causar danos se nos importarmos em demasia. Dei um passo para trás para só acertarem os respingos. Com eles, rego as sementinhas de amor-perfeito que plantei aqui em casa. Ninguém sabe, mas elas fazem parte do meu cenário também.
Por agora, tento apreender a arte de pedir. Já não é tão fácil porque não depende só de eu me libertar de mim, mas de colocar pedacinhos de confiança no próximo. É trocar orgulho por algo que a gente não sabe o que é, mas tem esperança de que seja algo bom. É fazer o que pode com o que se tem e esperar que o outro faça o mesmo.
               
Se um dia você quiser trocar, espero que compreenda: eu só posso um mundo.

5 de fevereiro de 2016

Ensaio sobre o nada




Não quero escrever. Não quero medir meu humor ou pensar em quantos minutos já se passaram desde que decidi que não conseguiria dormir se não me pusesse, a contragosto, em frente a uma tela, a uma partitura, a uma folha vazia. Na verdade, não quero sair da cama. Você até pode dizer que é por ocasião das férias letivas, que o tédio é bom e suave, mas não é bem assim. Eu sei a diferença.
Sempre gostei de manhãs, mas agora somente acordo para o almoço. Infeliz por ter que me mover para um lugar tão distante como outro cômodo. Com frequência, estou com dor de cabeça. Talvez pelas horas que passei em frente ao computador, talvez pelo esforço contínuo de fazer qualquer coisa que não seja o nada que vem se tornando habitual com o passar dos dias.
Preciso de um emprego, mas, ora, é período ruim da economia, não é? É completamente desculpável adiar para mais tarde. Hoje eu li três livros, ainda que não tenha terminado nenhum, mas não liguei o celular porque não queria receber as mensagens e me obrigar a interagir com as pessoas por ali. Eu as adoro, mas está cada vez mais difícil manter uma conversação. Isso significaria sair do meu silêncio egocêntrico e, por certo, marcar de ir na sorveteria durante uma tarde que, a depender da vontade da cidade, seria ensolarada ou um tanto chuvosa.
Já escrevi poemas românticos e histórias que eram sobre romances. Já me aventurei em canções de uma estrofe e narrativas mais longas que, durante anos, somente alguns dias, me animo a reescrever. Em intermédios dos meus dezoitos anos, meu eu passou a gritar, mostrar os dentes e a me arranhar com suas garras. Com sua expressão de esfinge, disse-me entredentes: decifra-me ou devoro-te, e a muito custo passei a compreender-me. Aprendi-me cíclica e, agora, escrevo sobre nada, porque é isso que me interessa. Leio como se estivesse no fim da vida, como mera espectadora que já não tem presença de espírito de viver as histórias em vez absorvê-las. Não tenho dezenove anos e estou no segundo ano da faculdade. Não quero voltar para aquela arquitetura tão admirada por muitos que resplandece o branco, que me lembra do vazio de um hospital, que engrandece seu espaço até o teto, que me tira de órbita.
Minha horta de um vaso só poderia estar morrendo afogada por tanta chuva, mas ela cresce um pouquinho por vez, cada raio de sol mais verde, cada céu azul mais alta. Não gosto de cozinhar e nunca fui boa. Também não quero mais tanto chocolate. A dança e a luta, vou confessar-lhe, tornaram-se minhas maiores ligações com o mundo real. É quando sou parte de algo, quando tenho que abrir os olhos ou vou cair. Se não me prendo à barra de metal junto ao meu corpo, a esfinge me devora. Eu sei, mas nunca poderia abandoná-la. Até uma quimera precisa de companhia para as tardes que não quer retornar sozinha para casa.
As gotas de água que caem essa noite estão ritmadas com o meu coração. É um bom momento para dormir se você não tiver insônia ou não tiver acordado no início da tarde. Quando eu estudava, eram todas aquelas listas e trabalhos por fazer. Quando no ápice da minha rotina de gente inquieta que precisa de um vira-tempo, era só o estresse pela ligação no duzentos e vinte o tempo todo. Nesse início de fevereiro, é só o tédio que veio disseminar o desassossego. Tudo passa, menina! É só uma fase ou, se preferir, essa sua mania de adolescência tardia. Essa sua síndrome de Peter Pan. A letargia é só mais um refúgio. Qualquer coisa é melhor do que a dor e eu quase concordo. Aprendi a amar essa falta de alguma coisa. Na ausência de todo o restante, eu não poderia também me afastar. A esfinge, como já disse, não permitiria.
Amanhã acho que vou marcar uma consulta com o dentista, mas talvez eu acorde e prefira deixar para semana que vem. Não faço mais dietas. Não tenho mais expectativas superestimadas para o futuro. Um dia termino meu álbum de fotografias para uma ode ao passado. Outrora eu encontro uma exposição de arte que reviva minha fome.

Hoje, sou só eu e o nada. A menina e o vazio.

A solidão me acalma. 

15 de novembro de 2015

Colcha de retalhos

Faz quase duas semanas que fiz aniversário.

Se um estranho do outro lado da rua tivesse me gritado por cima dos carros: “ei, você está feliz com isso?”, em um primeiro momento eu teria balançado meu guarda-chuva de bolinhas para ele, em sinal de negativa. Eu nunca soube lidar com aniversários. Não sabia o que fazer diante daquela atenção adicional, aqueles sorrisos às vezes genuínos ou aquela palavrinha, talvez filha única, daquele desconhecido que só é meu amigo nas redes sociais: parabéns. Parabéns pelo quê? Eu me pergunto, sabendo que outros deveriam ter se perguntado antes de mim, mas sem querer saber as respostas deles, ainda que fossem iguais. Por ter sobrevivido mais um ano? Por crescer? Por mais uma gama de experiências, uma finitude de escolhas? Talvez o parabéns fosse para minha mãe, por ter me colocado aqui, talvez fosse mais justo, já que não fiz nada.
Ainda assim, quando era criança, se você me perguntasse quando era meu aniversário, eu sempre seria objetiva com você: três dias depois do dia das bruxas. Engraçado ter um dia a partir de outro, não é? Mas é que eu sempre gostei delas, da magia delas, da liberdade.
Outra confissão que lhe faço é que tenho dois dias de aniversário: por culpa da astrologia, dos médicos e do tempo. Sabe aquele dia de finados que as pessoas costumam lembrar de seus entes queridos? Ele também é meu! Aquela noite eu já estava por aqui, é minha escolha amá-lo, enquanto o outro dia, não tão negativo, mais cotidiano, foi uma decisão familiar e filho do horário de verão: amo-o por sua representatividade, por ser comemorativo e por me acolher.
Entrementes, apesar de amá-los, não conseguia gostar muito deles. Eu não poderia me esconder em uma cabana de madeira em uma praia deserta e comemorar pulando as ondas do mar, como meu ano novo pessoal que de fato é. Talvez, aliás, um dia eu faça isso.  Mas aí, enquanto não é possível, eu precisava encontrar maneiras de conviver com eles, com todo aquele círculo íntimo de pessoas que se importam e que eu sinceramente amo.
Se é inevitável, a gente precisa se adaptar, eu dizia para mim mesma. A pintura nunca foi um dom do meu coração, mas as palavras são, a leitura é. E elas me ensinaram a ver as coisas sob outro ponto-de-vista. Sempre haveria vários. Os secundários também eram os principais de suas próprias histórias, os vilões só eram vilões quando vistos de um viés, mas talvez não de todos.
Foi assim que eu comecei a despedaçar os meus aniversários. O dia poderia não ser perfeito por ocasião das circunstâncias, mas haveria ao menos um momento feliz. Resolvi me agarrar a ele e, com aquela memória seletiva, tão humana, tão vantajosa, colá-lo no meu mural temporal dos anos. Resolvi ser grata genuinamente por todos os votos de felicidade que recebia e retorná-los aos remetentes com o dobro de afeto via aquele laço invisível que, como correnteza, transporta sentimentos.

Que você seja feliz, que você seja feliz, que você seja feliz.

Aceitei a todas as surpresas e guardei em um potinho, dentro da minha prateleira imaginária que guardo as pessoas, os momentos e as sensações que me ajudaram a construir o restante da casa. Passei a considerar os abraços como caçadores de distâncias, como gestos de empatia. Parei de temê-los com toda aquela ausência infantil que me constitui, eram apenas presentes. Deixei para trás aquele olhar que me troçava pelo espelho e me seguia pelos becos gritando ao mundo sobre minha fraude. Aquela síndrome do impostor poderia até fazer parte da minha vida acadêmica, ela já chegava abrindo a geladeira, mas cabia só a mim contê-la. Tudo bem, você me faz querer ser melhor, mas você não vai mais estragar os meus aniversários, eu disse a ela.
Assim, e por causa de pessoas queridas que aceitaram viver tudo isso comigo, eu passei a utilizar os outros pedaços dos meus aniversários em outros dias. Eles passaram a virar semanas. Por vezes, recebi mensagens atrasadas que implicitamente me diziam: ei, eu estou aqui também!, e elas não tiraram importância de um momento específico, mas criaram outro especial. Também houveram as cartas que tardaram a chegar e mudaram segundas-feiras ranzinzas. A surpresa das pessoas que sempre vou guardar no coração como um exemplo de que o trabalho (e a falta dele) também pode ser maravilhoso. E o dia da pizza, que eu mesma marquei, e chamei todo mundo que não via há tempos e estava com saudades. Nem todos poderiam ir, eu sabia, mas alguns eu ainda poderia rever. E saber como está a vida. E compartilhar um abraço e rir sobre a pizza de sorvete com chocolate e morango que iríamos competir pelo último pedaço. Para os outros, sempre haveria o ano que vem e seus próprios aniversários.
E ao pensar em tudo isso, percebi que ainda não sabia lidar com eles, mas poderia compreender aquela rede de sentimentos e estendê-la o mais distante que pudesse. Porque eu já tinha tudo e assim o foi desde que nasci. E tudo o que eu poderia fazer agora era jogar esse sentimento que transbordava de mim ao vento para que atingisse o maior número de pessoas que, como eu, também eram abençoadas.

Gratidão.