20 de dezembro de 2016

Mrs. Woolf


Virgínia,

Acabo de lê-la mais uma vez. Sua voz narrativa tinha outro tom: era a escritora ensaiando em um mundo de homens e, como necessário, contava sobre mulheres. Não continha todo aquele teor pessoal de Mrs. Dalloway, mas era você por inteira. Amalgamava sua história nas entrelinhas.
O nome do livro era “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” e, como pode entender, consiste numa reunião das suas cartas e críticas e resenhas para alguns eventos que fizeram parte de sua vida. Gostei particularmente do primeiro texto e, embora toda a obra caminhe nessa direção, pareceu um precursor de “um teto todo seu”.
Confesso que em algum momento próximo vou precisar reler todas as 100 páginas que foram tão breves. Tiveram diversas passagens que me fizeram respirar com maior profundidade, perguntar-me se havia entendido o que ali estava contido e, sem separar os lábios, soltar ao vento uma exclamação: ah, virgínia!
Se você não tivesse ido tão jovem, se não tivesse sido tanto, se não fosse toda a força presente em sua escrita, esse livro somente seria mais um ensaio feminista. Talvez hoje fosse, porque o assunto está cada dia mais em pauta, cada vez mais universitário, mais cotidiano, infiltrando-se aos bocados nos recantos mais perdidos de nossa sociedade patriarcal. Ainda temos muito o que fazer, preciso ser franca. Avançamos alguma coisa nesse quase um século que nos separa, mas ainda não o suficiente.
Nós também discutimos as jornadas de trabalho, o aumento salarial, adentramos em mercados majoritariamente masculinos e claramente há muita gente que acredita em nossa inferioridade intelectual; que mesmo uma mulher inteligente nunca será tão notável como o mais notável dos homens. No meu país, ao menos, não estamos mais discutindo a Lei do Divórcio. Em troca, há um evidente regresso no que tange à previdência social. Sim, eu sei que seria uma solidariedade fictícia a que lhe envolveria, já que sua renda era de 500 libras anuais e você, como bem frisou, não precisava trabalhar, não se enquadrava àquela realidade da União das Trabalhadoras de 1930. Mesmo assim, acredito que você gostaria de saber, gostaria de refletir e considerar o assunto da mesma forma que agora faço, após você me fazer sair por algumas horas de minha realidade e adentrar a sua.
Espero que você não se importe se eu lhe escrever às vezes, tenho a impressão que é o que vou desejar quando ler “O quarto de Jacob” e “Rumo ao Farol”. Aliás, é engraçado como você e Plath são tão diferentes, mas me causam essa familiaridade e esse estranhamento. Com ela, meu peito gritava, consciente de si mesmo e de sua autoficção. Com você, eu ouço o silêncio desenfreado de suas batidas.
Com ambas, eu volto a sentir.

A.

11 de setembro de 2016

Ad perpetuam rei memoriam


Vovô era motorista de caminhão.

Trabalhava para médicos, gente letrada. Trabalhou muito. Levava remédios, frascos e o que precisasse para todos os cantos do Brasil. Não sei se sempre foi calvo, mas eu poderia apostar que a magreza o acompanhou durante toda a sua vida.
Ele casou com vovó quando ela tinha vinte e cinco anos e trabalhava em um posto de saúde de Londrina. Era vida dura, ele disse, daquele jeito dele que só quem conhece os dois poderia compreender de verdade. Um mal terminava de falar, o outro já iniciava a próxima oração.
- Eu podia ter pego o diploma de digitador se eu quisesse, meu amigo falou que ‘tava prontinho pra mim – disse vovô.
- E do que adiantaria procê que é praticamente analfabeto? – retrucou vovó.
Com eles sempre era assim. Um sempre brigando com o outro. Só resmungos e olhares duros quando se tinha uma versão diferente da história que o outro contava, ainda que eu tenha sentido o calor da lembrança, o brilho da saudade de quem não se arrepende uma gota de tudo o que viveu.
Eles trabalharam muito. Construíram casa em Curitiba. Construíram casa na Praia. Assim mesmo; os dois. Compraram os terreninhos que podiam comprar e construíram uma chácara, onde eles tinham tanque de pesca, galinhas e milho. Economizaram sempre, disse papai, fazendo sinal de mão fechada enquanto eles me contavam tudo.
Pobre de mim, que sempre achei que vovô tinha sido um pedreiro-talvez-carpinteiro e vovó, uma enfermeira. Mas ele também foi mecânico. Ela, se eu for pensar bem, fez muita coisa na vida.
Era uma vida dura, mas, ah, como era divertido – disse vovô, risonho, naquele sotaque envelhecido de sítio.
Vovô e vovó já foram de caminhão até Porto Velho, me contaram. Precisavam levar carga até Manaus. Dormiam no caminhão para economizar a diária (tudo ia para a construção da casinha de Curitiba, a primeira), cozinhavam no caminhão porque não tinha outro lugar para cozinhar. Era um calor dos infernos por lá.
Já com dois de seus três filhos, papai e tia Néia, saíam de manhãzinha para a Praia de Leste para passar o dia. As crianças, me disseram, ficavam a tarde inteira no mar e, na volta, passavam mal o caminho todo. Chegamos à conclusão que por insolação e a mistura de um bocado de água do mar com comida, mas não seria isso que os impediria de fazer a mesma coisa no próximo fim de semana. Talvez ir para Arapongas. Talvez para Londrina.
- Não é de não se entender porque a gente tá do jeito que tá – disse vovô, lembrando disso tudo e das bebidas e dos cigarros que ambos compartilharam em toda essa jornada.
- E só com quase oitenta anos – disse papai, porque a idade justificava mais a saúde do que tudo aquilo e mais o mundo que levaram nas costas. Eu só pude concordar. Quando vejo vovô e vovó não me lembro que nenhum dos dois terminou o ginásio. Não me lembro que ambos sabem bulhufas de política ou nunca saberão mais do que meia dúzia de palavras em inglês.
Quando eu olho para vovó e vovô, na verdade, eu sinto que tudo isso não vale de nada para o tamanho de força que cada um tem. Isso importa um cominho quando eles têm toda essa carga de vida dentro deles. Eu sei que muita gente, embora muito mais letrada, embora muito mais rica financeiramente, nunca vai ser metade da gente que eles são. Nunca vai viver metade do que eles viveram em uma só viagem de caminhão, em única viagem à praia no dia de domingo.
Quando eu olho para vovó e vovô, vejo duas narrativas que se uniram para formar uma que nunca poderá ser esquecida por aquele que a leu.
E eu agradeço por ter ouvido, por ter sido preenchida por um amor que transbordou. 

23 de maio de 2016

Relato de uma borboleta


Foi com uma das autoras da minha adolescência que aprendi a arte de fazer o que podia com aquilo que eu que tinha. Parecia tão óbvio que é de se espantar que a gente não pense a respeito nem quando sentado em um ônibus encarando a paisagem lá fora. Eu sempre vivi em meu próprio mundo, aquele que criei sem querer e abracei com todo o amor que eu poderia fabricar. Ele tinha um cenário multicolor e seus habitantes me ensinaram a rascunhar suas histórias. Ele tinha personagens de naturezas distintas e suas vontades me ensinaram a empatia (hoje, ainda em construção). Nele, eu aprendi o valor da utopia. Na realidade, me contaram como é ela quem faz a gente caminhar (ainda penso sobre isso, galeano, mas você se foi muito cedo).
Ele não foi somente um refúgio, mas uma lembrança do que eu gostaria de fazer com a minha vida. Não adiantaria de nada a tentativa de desenhar um chapéu se no esboço eu só visse uma cobra que comeu um elefante. Não adiantaria de nada aprender a integrar quando minha habilidade era a de construir um castelo de cartas (ou uma sequência de fibonacci de dominós ou uma torre de agravos de instrumento). Eu tinha um mundo. Ele não era tangível para mais ninguém, mas me servia de escudo para todo o impacto da realidade. Foi dentro dele, de portas trancadas a sete-chaves, que aprendi a fazer o que podia com aquilo que tinha.
Em outras palavras, passei a buscar onde melhor me adequava em vez de correr atrás de coisas que, para alcançar, eu teria que trocar todas as minhas peças. O tempo, que constantemente briga comigo porque exijo mais dele do que ele pode me dar (eu só tenho algumas horas!, ele me diz, da próxima vez, vê se dorme menos...), deixou de me olhar tão enviesado e passou a me ajudar a filtrar a rotina, ainda que eu viva sempre atrasada (é tarde é tarde é tarde!).
Trabalhar se tornou um verbo como outro qualquer, porque entendi que sempre estaria só de passagem e, enquanto estivesse ali, eu só precisaria fazer o que podia com aquilo que eu tinha. O mesmo com as provas da faculdade que só deixam um rastro meio amargo, mas não provam nada. Quase aprendi a lidar com o direito, essa ciência de realidade que quase me afogou, mas toda essa competitividade em tudo o que fazemos só pode causar danos se nos importarmos em demasia. Dei um passo para trás para só acertarem os respingos. Com eles, rego as sementinhas de amor-perfeito que plantei aqui em casa. Ninguém sabe, mas elas fazem parte do meu cenário também.
Por agora, tento apreender a arte de pedir. Já não é tão fácil porque não depende só de eu me libertar de mim, mas de colocar pedacinhos de confiança no próximo. É trocar orgulho por algo que a gente não sabe o que é, mas tem esperança de que seja algo bom. É fazer o que pode com o que se tem e esperar que o outro faça o mesmo.
               
Se um dia você quiser trocar, espero que compreenda: eu só posso um mundo.

5 de fevereiro de 2016

Ensaio sobre o nada




Não quero escrever. Não quero medir meu humor ou pensar em quantos minutos já se passaram desde que decidi que não conseguiria dormir se não me pusesse, a contragosto, em frente a uma tela, a uma partitura, a uma folha vazia. Na verdade, não quero sair da cama. Você até pode dizer que é por ocasião das férias letivas, que o tédio é bom e suave, mas não é bem assim. Eu sei a diferença.
Sempre gostei de manhãs, mas agora somente acordo para o almoço. Infeliz por ter que me mover para um lugar tão distante como outro cômodo. Com frequência, estou com dor de cabeça. Talvez pelas horas que passei em frente ao computador, talvez pelo esforço contínuo de fazer qualquer coisa que não seja o nada que vem se tornando habitual com o passar dos dias.
Preciso de um emprego, mas, ora, é período ruim da economia, não é? É completamente desculpável adiar para mais tarde. Hoje eu li três livros, ainda que não tenha terminado nenhum, mas não liguei o celular porque não queria receber as mensagens e me obrigar a interagir com as pessoas por ali. Eu as adoro, mas está cada vez mais difícil manter uma conversação. Isso significaria sair do meu silêncio egocêntrico e, por certo, marcar de ir na sorveteria durante uma tarde que, a depender da vontade da cidade, seria ensolarada ou um tanto chuvosa.
Já escrevi poemas românticos e histórias que eram sobre romances. Já me aventurei em canções de uma estrofe e narrativas mais longas que, durante anos, somente alguns dias, me animo a reescrever. Em intermédios dos meus dezoitos anos, meu eu passou a gritar, mostrar os dentes e a me arranhar com suas garras. Com sua expressão de esfinge, disse-me entredentes: decifra-me ou devoro-te, e a muito custo passei a compreender-me. Aprendi-me cíclica e, agora, escrevo sobre nada, porque é isso que me interessa. Leio como se estivesse no fim da vida, como mera espectadora que já não tem presença de espírito de viver as histórias em vez absorvê-las. Não tenho dezenove anos e estou no segundo ano da faculdade. Não quero voltar para aquela arquitetura tão admirada por muitos que resplandece o branco, que me lembra do vazio de um hospital, que engrandece seu espaço até o teto, que me tira de órbita.
Minha horta de um vaso só poderia estar morrendo afogada por tanta chuva, mas ela cresce um pouquinho por vez, cada raio de sol mais verde, cada céu azul mais alta. Não gosto de cozinhar e nunca fui boa. Também não quero mais tanto chocolate. A dança e a luta, vou confessar-lhe, tornaram-se minhas maiores ligações com o mundo real. É quando sou parte de algo, quando tenho que abrir os olhos ou vou cair. Se não me prendo à barra de metal junto ao meu corpo, a esfinge me devora. Eu sei, mas nunca poderia abandoná-la. Até uma quimera precisa de companhia para as tardes que não quer retornar sozinha para casa.
As gotas de água que caem essa noite estão ritmadas com o meu coração. É um bom momento para dormir se você não tiver insônia ou não tiver acordado no início da tarde. Quando eu estudava, eram todas aquelas listas e trabalhos por fazer. Quando no ápice da minha rotina de gente inquieta que precisa de um vira-tempo, era só o estresse pela ligação no duzentos e vinte o tempo todo. Nesse início de fevereiro, é só o tédio que veio disseminar o desassossego. Tudo passa, menina! É só uma fase ou, se preferir, essa sua mania de adolescência tardia. Essa sua síndrome de Peter Pan. A letargia é só mais um refúgio. Qualquer coisa é melhor do que a dor e eu quase concordo. Aprendi a amar essa falta de alguma coisa. Na ausência de todo o restante, eu não poderia também me afastar. A esfinge, como já disse, não permitiria.
Amanhã acho que vou marcar uma consulta com o dentista, mas talvez eu acorde e prefira deixar para semana que vem. Não faço mais dietas. Não tenho mais expectativas superestimadas para o futuro. Um dia termino meu álbum de fotografias para uma ode ao passado. Outrora eu encontro uma exposição de arte que reviva minha fome.

Hoje, sou só eu e o nada. A menina e o vazio.

A solidão me acalma. 

15 de novembro de 2015

Colcha de retalhos

Faz quase duas semanas que fiz aniversário.

Se um estranho do outro lado da rua tivesse me gritado por cima dos carros: “ei, você está feliz com isso?”, em um primeiro momento eu teria balançado meu guarda-chuva de bolinhas para ele, em sinal de negativa. Eu nunca soube lidar com aniversários. Não sabia o que fazer diante daquela atenção adicional, aqueles sorrisos às vezes genuínos ou aquela palavrinha, talvez filha única, daquele desconhecido que só é meu amigo nas redes sociais: parabéns. Parabéns pelo quê? Eu me pergunto, sabendo que outros deveriam ter se perguntado antes de mim, mas sem querer saber as respostas deles, ainda que fossem iguais. Por ter sobrevivido mais um ano? Por crescer? Por mais uma gama de experiências, uma finitude de escolhas? Talvez o parabéns fosse para minha mãe, por ter me colocado aqui, talvez fosse mais justo, já que não fiz nada.
Ainda assim, quando era criança, se você me perguntasse quando era meu aniversário, eu sempre seria objetiva com você: três dias depois do dia das bruxas. Engraçado ter um dia a partir de outro, não é? Mas é que eu sempre gostei delas, da magia delas, da liberdade.
Outra confissão que lhe faço é que tenho dois dias de aniversário: por culpa da astrologia, dos médicos e do tempo. Sabe aquele dia de finados que as pessoas costumam lembrar de seus entes queridos? Ele também é meu! Aquela noite eu já estava por aqui, é minha escolha amá-lo, enquanto o outro dia, não tão negativo, mais cotidiano, foi uma decisão familiar e filho do horário de verão: amo-o por sua representatividade, por ser comemorativo e por me acolher.
Entrementes, apesar de amá-los, não conseguia gostar muito deles. Eu não poderia me esconder em uma cabana de madeira em uma praia deserta e comemorar pulando as ondas do mar, como meu ano novo pessoal que de fato é. Talvez, aliás, um dia eu faça isso.  Mas aí, enquanto não é possível, eu precisava encontrar maneiras de conviver com eles, com todo aquele círculo íntimo de pessoas que se importam e que eu sinceramente amo.
Se é inevitável, a gente precisa se adaptar, eu dizia para mim mesma. A pintura nunca foi um dom do meu coração, mas as palavras são, a leitura é. E elas me ensinaram a ver as coisas sob outro ponto-de-vista. Sempre haveria vários. Os secundários também eram os principais de suas próprias histórias, os vilões só eram vilões quando vistos de um viés, mas talvez não de todos.
Foi assim que eu comecei a despedaçar os meus aniversários. O dia poderia não ser perfeito por ocasião das circunstâncias, mas haveria ao menos um momento feliz. Resolvi me agarrar a ele e, com aquela memória seletiva, tão humana, tão vantajosa, colá-lo no meu mural temporal dos anos. Resolvi ser grata genuinamente por todos os votos de felicidade que recebia e retorná-los aos remetentes com o dobro de afeto via aquele laço invisível que, como correnteza, transporta sentimentos.

Que você seja feliz, que você seja feliz, que você seja feliz.

Aceitei a todas as surpresas e guardei em um potinho, dentro da minha prateleira imaginária que guardo as pessoas, os momentos e as sensações que me ajudaram a construir o restante da casa. Passei a considerar os abraços como caçadores de distâncias, como gestos de empatia. Parei de temê-los com toda aquela ausência infantil que me constitui, eram apenas presentes. Deixei para trás aquele olhar que me troçava pelo espelho e me seguia pelos becos gritando ao mundo sobre minha fraude. Aquela síndrome do impostor poderia até fazer parte da minha vida acadêmica, ela já chegava abrindo a geladeira, mas cabia só a mim contê-la. Tudo bem, você me faz querer ser melhor, mas você não vai mais estragar os meus aniversários, eu disse a ela.
Assim, e por causa de pessoas queridas que aceitaram viver tudo isso comigo, eu passei a utilizar os outros pedaços dos meus aniversários em outros dias. Eles passaram a virar semanas. Por vezes, recebi mensagens atrasadas que implicitamente me diziam: ei, eu estou aqui também!, e elas não tiraram importância de um momento específico, mas criaram outro especial. Também houveram as cartas que tardaram a chegar e mudaram segundas-feiras ranzinzas. A surpresa das pessoas que sempre vou guardar no coração como um exemplo de que o trabalho (e a falta dele) também pode ser maravilhoso. E o dia da pizza, que eu mesma marquei, e chamei todo mundo que não via há tempos e estava com saudades. Nem todos poderiam ir, eu sabia, mas alguns eu ainda poderia rever. E saber como está a vida. E compartilhar um abraço e rir sobre a pizza de sorvete com chocolate e morango que iríamos competir pelo último pedaço. Para os outros, sempre haveria o ano que vem e seus próprios aniversários.
E ao pensar em tudo isso, percebi que ainda não sabia lidar com eles, mas poderia compreender aquela rede de sentimentos e estendê-la o mais distante que pudesse. Porque eu já tinha tudo e assim o foi desde que nasci. E tudo o que eu poderia fazer agora era jogar esse sentimento que transbordava de mim ao vento para que atingisse o maior número de pessoas que, como eu, também eram abençoadas.

Gratidão. 

26 de setembro de 2015

A redoma de vidro

            

"I took a deep breath and listened to the old brag of my heart:
I am. I am. I am." 

(The Bell Jar, Sylvia Plath)

Sylvia,

A verdade é que desde que comecei a ler seus escritos, muito tempo após conhecê-la de fato, eu quis lhe escrever algumas palavras. Não sei, talvez por ter me identificado com suas ideias mais do que gostaria ou me seria saudável. Talvez porque alguns de seus pensamentos tenham me levado às reflexões acerca de alguns assuntos que me preencheram de tristeza, enquanto outros me coloriram de indignação. Talvez seja por eu ter minha própria redoma de vidro também.
Eu realmente não sei. Só acredito que o final de sua quase-autobiografia não foi o seu final feliz; como alguns acreditaram que você gostaria de ter terminado na realidade, mas foi a verdade. Você somente me contou alguns anos de sua juventude e, embora eu não possa distinguir propriamente o que veio da sua mente e o que veio do seu passado, posso pensar que, por algum tempo, você conseguiu cimentar suportes fortes o bastante para que sustentassem a redoma acima de você, imóvel. Conseguiu que o ar chegasse a seus pulmões e a vida se infiltrasse como luz em seus poros. Por algum tempo, você pode ter pensado que poderia conviver com essas frestas, que poderia sobreviver. Infelizmente para todos nós, certos acasos são afiados o bastante até para romper as ligações mais estáveis e a sua, frágil como só você poderia ter sido, desenlaçou-se anos mais tarde. Com um baque que chegou a me doer os tímpanos, pude sentir quando o suporte de vidro voltou a se fechar sobre seu corpo, sua mente nublar-se e você se negar a recomeçar tudo aquilo. Dessa vez, não permitiu que outros fizessem reticências do que você queria um ponto final. Permitiu-se ir, mesmo que em suas palavras continue tão viva como nunca poderia ter imaginado estar.
               Sei da sua relação com as pessoas que a cercavam por suas próprias memórias. Compreendo que possa ter se sentido sufocada com toda a artificialidade do mundo, com a opressão da sociedade, com todo o cuidado protetor de sua mãe. Mas, Sylvia, não posso deixar de me perguntar se você alguma vez foi capaz de lhe sentir empatia. Sentiu, Sylvia? Porque tudo o que vi foi uma menina – isso mesmo, menina! – ensimesmada e fraca demais para suportar o peso que lhe foi atribuído. Não, não serei injusta, você estava doente. Mais do que isso: aprisionada. Afogou-se em si mesma e mergulhou cada vez mais fundo. Não soube encontrar o caminho de volta, mesmo quando esteve à margem. Ainda assim, você alguma vez chegou a pensar em todos os sacrifícios que ela fez por você? Em todo o trabalho, toda a proteção, todo o tempo e a vida que ela deixou de lado para que você e seu irmão pudessem crescer com dignidade? E eu sei que você não pensou, Sylvia. Porque você me mostrou seu ponto-de-vista. Eu vi o que você viu. Senti o que sentia. Doeu, sabe. Você quebrou meu coração, mesmo que eu ainda não saiba se pelo seu futuro ou pelo meu.
               Ah, Sylvia. Ela a amava. Você sabia disso, não é? No fundo, no fundo, devia saber. Mesmo que você a odiasse com todas as suas forças ou assim o dissesse. Apesar disso, não posso afirmar que entendo todas as suas nuances porque só fiquei na superfície do lago; minha redoma é porosa e, contrária a você que me parecia mais um girassol, sou como uma violeta e não preciso de muita luz e água para sobreviver, como já escrevi por vezes.
               Também preciso lhe agradecer por, junto contigo, ter tido a consciência de minha existência. Eu gosto de ser invisível, mas isso não significa que eu precise sê-lo o tempo todo, às vezes é bom firmar os pés no chão, impor-se frente ao campo de batalha. Em outros momentos é necessário parar e sentir as próprias batidas do coração. O mundo às vezes pode não ter lugar para gente, como você bem sabe, Sylvia, mas o corpo sempre tem que ser cômodo; é dentro dele que edificamos as nossas muralhas, que permanecemos intocáveis. E acho bem que você sabia disso quando se recusou a permanecer com o corpo imaculado tal como pressionava a sociedade de sua época. Eles cultuavam o corpo e a honra de uma mulher, mas esqueciam-se de sua humanidade. Você foi mais uma vítima desse erro. Mais uma peça do quebra-cabeças que não tinha um encaixe. E eu, como muitos outros antes e seguramente após a mim, sinto muito por isso.

Mas eu lhe agradeço, Sylvia. Agradeço por existir.

Com amor,

A.


6 de julho de 2015

Sobre amizades que engolem distâncias

Caro F.,

Está tudo bem?

Apesar do abismo de ausência que nos separa por vezes, acredito que nossa amizade já possui edificações o bastante para não desabar como um castelo de cartas em seu primeiro assopro. Imagina se assim o fosse? Não poderíamos mais conversar sobre um milhão de livros e tomar sorvete, e essas são duas das melhores coisas a se fazer no mundo e não poderíamos perder essa chance por mera bobagem como a distância. 

Sabe, queria te contar que a vida por aqui está uma primavera no meio de um inverno. Morninha, com partes floris e cheia de cor. Ás vezes esfria e tenho que colocar um casaco, mas nada que um bolo de chocolate não resolva para alegrar as coisas. Também queria dizer, antes que me falhe a memória, que não me esqueci do quão importante é o dia de hoje para você. Espero que o seu cenário seja cheio das pessoas que mais ama, decorado com a paz de alguém que a merece, e que tenha uma rede de tom chocolate para colocar todos os bons sentimentos existentes por aí que lhe forem desejados nessa ocasião. Por favor, não esqueça de vigiá-los! Eles escorrem por entre os dedos em sua primeira oportunidade, mas estou certa de que não fazem por mal. Sentimentos são como crianças e gostam de explorar o que lhes rodeia, nós só temos que assegurar nossa presença nas proximidades e tudo ficará bem. 

É claro que eu não poderia terminar essa carta sem antes te enviar mais algumas saudações. Oras, o que faria eu com as caixas de alegria, os sachês de sorte e os lotes de força de vontade? Eles foram embrulhados com o tempo para todas as viagens que você quiser fazer nessa nossa grande casa redonda e azul. Aliás, estou enviando por pombo-correio, então talvez demorem alguns dias.

E, assim que puder, abrace esse presente em forma de palavras que já está batendo em sua porta e dançando na frente de seus olhos, porque elas são o que tenho de mais valioso por aqui.

Com desejos de muitos biscoitos de chocolate,

A.